sábado, 4 de maio de 2013

C.

[obra de Berthe Morisot, não encontrei nome, data. Ela é uma de minhas pintoras preferidas desde que vi suas obras pessoalmente]

Pra ter uma experiência boa, não precisa sair para o melhor lugar da cidade, o point indicado pelo guia dos jornais. Para viver, a abertura de si exigida é mínima.
Agora há pouco, por volta das onze da noite, desci para a academia do flat. Crente de que estaria sozinha, dado o horário, assustei-me com uma mulher, também descendente de japoneses, semelhante também na altura e no comprimento dos cabelos, pretos. Ela chegou logo em seguida e perguntou se poderia ligar a tv. Puxei algum assunto, enquanto escolhia a música do fone e respondia a mensagens no whatsapp (não consigo fazer uma coisa de cada vez, quase nunca). 
Não, não moro aqui, estou hospedada. Você estuda? Ah, que bom... Mas é concurso? Pergunto porque minha filha também faz Psicologia. Ela gosta da área de Saúde Mental, é a sua? Ah... Poxa, que bom. E sua mãe se preocupa com você, né - acabou de ligar... Área difícil a de vocês, se bem que pra médico também está difícil, sou médica... Gineco e Oncogineco, também não é fácil. Só no particular não dá. 
Sim, ela é a do meio, está no último ano. Tem a mais velha e tenho mais um. Cresceram sem o pai, mas falo que não é porque meu casamento não deu certo que eles... Tem que tentar, né? Você, então, uma menina bonita! Precisa insistir, não pode deixar pra lá. Até porque depois vêm os filhos, e aí você tem uma razão de viver - veja sua mãe, estava lá pensando em você agora... 
Depois que separa, vem os outros homens, mas muitos pedem pra escolher, ou os filhos, ou eu. Aí eu digo: adivinha?? Ah, sim, eu tenho um amor agora. Mas é difícil eles assumirem os filhos dos outros. Eu falo que, se ele não está preso a mim, também não estou a ele, e eles têm medo, é bom. Tenho esteira em casa, só eu uso. Agora há pouco comi uma massa no restaurante com minha amiga... 
Mas você não pode desistir, tem que tentar. Você conhece o fulano? Ele mora aqui e é médico. São gêmeos e, olha!, estão solteiros... Um é médico, o outro, advogado. Fica esperta. Bom, acho que não aguento mais.  Continue no caminho certo, seus pais devem ter muito orgulho. Foi um prazer conhecer você.

...foi meu!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A separação da dor

[The Sleeping Girl. Tamara de Lempicka. Óleo sobre tela, 1930. Stephen Myers -Worth Avenue fine Arts, EUA]

Quantas vezes nos acontece de passar o dia com uma dor de cabeça forte, intensa, latejante, para enfim percebermos que, na verdade, a dor é em um dente, lá num cantinho da boca, e nada mais que isso? É o fenômeno da generalização da dor. Há situações em que é impossível para nosso cérebro detectar o foco exato de dor, seja ela por um corte profundo em uma situação de intenso estresse, em que a necessidade de fugir dali é adaptativa e, portanto, é melhor que não se tenha consciência da dor. Ou, simplesmente, porque a região afetada possui terminações nervosas que contribuem para esta dificuldade (como a dor de dente, por exemplo).

Emocionalmente falando, há outras maneiras de sentir dor de maneira generalizada. Como nas grandes dores do corpo, aqui não entra o tempo lógico; vive-se a dor sem olhar para as horas e o calendário. A vivência da dor pode ser pulsante, talvez repentina, daquelas que "retorcem", pode ficar crônica. Por outro lado, as dores desta natureza não passam com analgesia - às vezes é preciso, sim, anestesiá-las com medicação; porém, a resolução  envolve algo mais similar à fisioterapia: é aos poucos e no sucessivo contato com a própria dor que deixamos de senti-la.

Mais do que superá-la, é através do entendimento da dor (e isso envolve o contato com ela - nem que seja um contato "cirúrgico", cuidadoso, acompanhado, em zona segura) que podemos identificar de onde ela vem. Pois, da mesma maneira que a dor de dente, o espraiamento de uma dor emocional prejudica o discernimento do ponto exato da dor. Sentimos apenas a dor, e que dor!, precisa mais do que isso?? 

Sim. Para que não culpemos vítimas, não sejamos injustos com as outras pessoas e com nossos sentimentos (entrando assim na cadeia multiplicativa da dor), precisamos de uma leve resignação. Aceitar que a dor, sim, está lá; e nos concentrarmos para extraí-la sem maiores efeitos colaterais, tendo a grata surpresa de conferir seu real (e menor) tamanho.

Pílula de Pensamento 6



[Storyboard de Akira Kurosawa]

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"Quem se esmera às vezes cansa."

sexta-feira, 1 de março de 2013

A vida e a arte

Deve ter sido o nome mais óbvio das minhas postagens. Mas o que precisa ser destacado aqui não é o meu título, nem meu texto. É esse vídeo (o primeiro que coloco aqui), e que me tocou muito. Porque muito falamos sobre o adeus, a despedida, a perda - às vezes, nos atrevemos a falar do luto. Porém, raramente falamos sobre a vida além da separação. E, sim, ela existe. Não somos todos poetas ou artistas, nem podemos nos dar ao luxo de um ritual de adeus que envolva a Muralha da China. Mas, ainda assim, a vida pode nos brindar com surpresas. Para chegar lá, há um duro caminho a percorrer, e, durante pelo menos uma parte, devemos fazê-lo sós.

“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem ela saber, e foi assim.” Maeve Jinkings (Traduzido por Rodrigo Robleño)