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sexta-feira, 1 de março de 2013

A vida e a arte

Deve ter sido o nome mais óbvio das minhas postagens. Mas o que precisa ser destacado aqui não é o meu título, nem meu texto. É esse vídeo (o primeiro que coloco aqui), e que me tocou muito. Porque muito falamos sobre o adeus, a despedida, a perda - às vezes, nos atrevemos a falar do luto. Porém, raramente falamos sobre a vida além da separação. E, sim, ela existe. Não somos todos poetas ou artistas, nem podemos nos dar ao luxo de um ritual de adeus que envolva a Muralha da China. Mas, ainda assim, a vida pode nos brindar com surpresas. Para chegar lá, há um duro caminho a percorrer, e, durante pelo menos uma parte, devemos fazê-lo sós.

“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem ela saber, e foi assim.” Maeve Jinkings (Traduzido por Rodrigo Robleño)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ele de novo (o amor)



[arte de Christiane Vleugels]

Só porque o coração é o primeiro órgão que indica ao médico que estamos vivos - que existimos - na barriga da mãe, não quer dizer que seja fácil lidar com ele. Na verdade, muitas vezes é difícil entender o que ele quer dizer quando acelera ao encontrarmos aquela pessoa, e ainda mais duro decifrar aquele aperto que ele dá quando dizemos adeus.


Como o entendimento "consciente" só se dá quando adquirimos o mínimo de linguagem necessário para traduzir sensações em palavras, imagino como foi a primeira vez que sentimos um prazer tamanho que balançou nosso coração. Provavelmente foi lá atrás, num colo do pai ou abraçando a mãe, e na ocasião só pudemos babar ou, até, molhar as fraldinhas de emoção.

Mas, se até a vida adulta, identificar e falar dos sentimentos é higher level para qualquer ser humano, penso cá com meus botões sobre a diferença de pesos e medidas entre homens e mulheres nesse quesito.

Para nós, de certo modo é mais fácil: aquela velha história de que à menina é autorizado chorar, ser "manteiga derretida" (com esse mundo light, nem isso podemos ser, no máximo nos é autorizado ser uma Becel derretida). O homem, esse não chora. Bom, se não chora, faz o quê, então?

Duvido que muitas pessoas indagaram a continuação desse dito popular tão plutocrático. Faz o quê, se não chora mas está triste, se quer um colo, se a dor no peito está insuportável, ainda mais no calar da noite?

Recalca. Ignora. Nega. Verbos que, por si só, deixam claro o crime que é dizer que "homem não chora". Então, a saída é adoecer. É errar e só conseguir perceber que se perdeu depois que a ponte atrás já se desfez.

E, por essa enorme falha no cultivo dos sentimentos masculinos, eles tampouco sabem como agir frente a algo que lhes provoque um mínimo de dor. É mais fácil sair de cena, partir, ir embora: essa é a escolha-padrão desde os tempos das cavernas.
E aí... aí vem a Becel.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Do Amor (sempre ele)


Você pode ser linda; ter um cabelo perfumado; bom hálito. Você pode ser inteligente, falar de arte e de futebol usando um mesmo argumento essencial. Você pode ser engraçada, rir de si mesma, permitir que uma briguinha vire motivo de piada. Você pode ser companheira, lembrar-se de perguntar como foi o trabalho, vibrar com uma conquista, topar um programa de índio sabendo que pode ser divertido. Você pode ter tantas qualidades, mas sempre haverá alguém com qualidades parecidas, ou relativamente melhores. No fim, não é o conjunto de suas qualidades que determinará o sucesso ou o fracasso do seu relacionamento. Este, como já sabemos, é feito de dois; suas qualidades e seus defeitos são apenas uma pequena parcela do todo dinâmico e imprevisível que é uma relação. O que é qualidade pra um, pode não ser pra outro. Sua beleza pode deixá-lo inseguro. Seu companheirismo pode parecer uma invasão de privacidade. Sua insegurança pode ser a engrenagem que o faz se sentir forte e poderoso. Não, você não fez nada de errado, você não faltou com nada, você não excedeu em nada; e ao mesmo tempo sim, você fez tudo isso, e mais um pouco. Depende do ponto de vista, e ele nunca é monoangular quando o que se está em jogo é uma trama que envolve (pelo menos) dois seres com toda essa bagagem nas costas.

domingo, 2 de setembro de 2012

Concêntrico


[Crédito da foto: Miles Aldridge, "Dreamy" para Vogue Itália, 2009. www.milesaldridge.com]

Cá me encontro, ou desencontro (de mim mesma). Muitas tarefas me aguardam. Parte delas habitualmente exige de mim um certo esforço para levar a cabo, considerando que são protocolares e exigem um raciocínio concentrado constante, no qual me vejo tolhendo minha criatividade, pois ela não cabe ali. Porém, sempre me foi prazeroso o momento do fim, mesmo dessas tarefas protocolares, aquele parágrafo final que vem junto com o pensamento “Ficou bom! Terminei!” – este geralmente acompanhado de uma expressão como “At last!”, “Graças a Deus!”, ou qualquer outra referência moderna de “Parla!” ou “Heureca!” – com tanta gente no mundo e tantas coisas já descobertas, nossos grandes passos são menores do que os de nossos antepassados.
O problema é que ultimamente mesmo estas engatinhadas me são raras. Coisas para fazer não faltam, e nos últimos tempos me flagro pegando desvios para fazer tudo, menos o que prenda demais minha concentração – parto pras atividades “mão na massa” ou, poderia dizer, “corpo em movimento”: coleta de dados do mestrado, entrevistas, trabalhos manuais, culinária (é tão terapêutico cortar legumes!), academia. Academia mesmo; nunca na história desse corpo que me pertence fiz render tanto a mensalidade salgada da academia que frequento. Em suma, tudo que eu possa fazer sem ter que deixar de lado o alvo principal dos meus pensamentos: uma nova paixão. Um enamoramento, como penso ser mais bonito dizer.
Paixões, todo mundo que teve já sabe, são como um agente infeccioso que invade nosso organismo e exige que ele trabalhe a todo vapor a fim de dar conta de suas exigências; seja por meio de uma febre literal, seja através de outras maneiras de aliviar um pouco a tensão provocada quando seu corpo está habitado por outro ser vivo além de você. Porque, assim como acontece na invasão das bactérias, fungos e outros microorganismos, quando estamos apaixonados é como se o objeto da paixão estivesse constantemente nos habitando. E é por isso que, no meu caso, esse ser alienígena que se encontra em minhas entranhas me impede de cumprir com (pelo menos algumas) obrigações profissionais.
Quero esclarecer: meu hiperego não foi dar uma volta na praia, a ponto do ego abrir as asinhas e ficar negligente com meu trabalho. É só que minha energia, minha libido no sentido junguiano, não está tão direcionada para esses propósitos. A verdade é que ela esteve neste setor de investimento – a carreira –, quase que exclusivamente, durante dois anos: neste período, nenhum corpo estranho me invadiu dessa maneira. Nesse intervalo cronológico, nenhuma paixão foi tão grande a ponto de libertar meus olhos do princípio de realidade, deixando-me nas mãos do prazer e distorcendo o que é objetivo, alargando a importância de uma música ou de um gesto, reduzindo à menor potência (existe potência zero?) a relevância das notícias do jornal. Mensalão quem? Mensalão pra mim é o tempo não-cronológico, aquele interno, quando um par de dias sem notícias é tão insuportável quanto um grande mês, um mensalão.
Há outros sintomas: sinto prazer, sinto raiva, sinto euforia. Sinto uma felicidade boa, daquele tipo que o personagem de Will Smith define tão bem em “À Procura da Felicidade”. Fico insegura e tento ignorar minhas projeções, mas no fim do dia tenho pesadelos com tudo que era pra ficar embaixo do tapete. Tento colocar tudo em seu devido lugar, devolver-lhes as proporções originais. Mas aí vem a infecção e transfigura tudo novamente.
Como já nos dizem os cientistas, a paixão (assim como os processos infecciosos) não dura muito tempo, pois não somos programados para viver nessa “inconstância constante”; não resistiríamos a tamanha bagunça, que nos tira a ordem das coisas. É aí que a paixão beira a loucura, como já nos dizem os poetas.
Não sei se eu preciso me curar para entender o mensalão, já que no fim ele mesmo tem como pano de fundo outras paixões humanas. O que sei é que escrever sobre esse enamoramento é meu remédio, me devolve, ainda que ilusoriamente, a consciência e o controle. E, até a outra dose prescrita, volto para minhas tarefas.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mitos do amor


A IstoÉ desta semana traz nove mitos sobre o amor, aparentemente postos em terra por pesquisas científicas. Dentre eles, encontram-se: "Homens dão mais valor à parte física das mulheres e as mulheres ao status social dos homens"; "Relações proibidas são mais empolgantes"; "O romance e a paixão desaparecem com o tempo"; "O fim de um relacionamento é mais difícil para quem ainda está apaixonado"; "Brigas e críticas minam o casamento".

Honestamente, não sei se uma única pesquisa poderia explicar o que há detrás de tantas ideias vastamente disseminadas - e, portanto, a sabedoria popular ou senso-comum, alvo das refutações científicas. Entretanto, é muito claro que uma revista com tema de capa tão atraente venda bastante e sirva para debates entre amigos ao longo da semana.

Quanto a mim, aproveitei para ler sobre cada um dos nove mitos, me detendo especialmente no último: brigas e críticam minam o casamento (estendendo-o por conta para qualquer status de relacionamento amoroso). Sobre esta ideia, hoje se sabe que é muito pior esconder os sentimentos, e que uma conversa sem violência verbal ou física pode ser muito mais saudável.

Fato é que odeio brigar. Sempre fui da política de que, quando surjam os pepinos, que se os sanem antes de deitar a cabeça no travesseiro (ou as cabeças, para ser mais exata, partindo do talvez possível mito "Quando um não quer, dois não fazem"). Sempre fui ancorada pela fantasia de que, caso acontecesse algo ou comigo ou com a outra pessoa -morrer, no caso -, a outra ficaria para sempre muito arrependida de não ter feito as pazes.
Acontece que, hoje em dia, sei quem nem sempre é possível resolver tudo de um dia pro outro. Porque, adaptando a frase acima, quando um não quer se acertar, dois não se acertam. E sobram motivos para tal: teimosia, imaturidade, vingança, falta de interesse, etc. O difícil é quando a pessoa que quer se acertar fica presa a tais possibilidades e, ao invés de ganhar com a relação, sofre ônus.
Como, eu disse, odeio brigar. Mas o silêncio muitas vezes pode ser necessário para abrir nossos olhos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Do Amor I




Muitas vezes me pego pensando o que é o amor. Talvez porque essa palavra estampe mais da metade dos títulos de filmes românticos, surja em pelo menos 99% das músicas sertanejas, tenha mil e uma conotações e usos possíveis que, além de tudo, são muito bem aproveitados pela indústria do consumo. O amor vende.

Um tempinho atrás, descobri que uma amiga fez um blog que falava de amor. Mas ela fez uma ou duas postagens, deixando-o pra trás junto com um rompimento amoroso. Não é fácil falar de amor.

Mais fácil mesmo parece ser pensar sobre ele. Teorizar sobre algo que nem sequer conseguimos bem definir. Aos poucos, vou me deparando com ideias a respeito: de Stendhal a Comte-Sponville, agora vejo uma no meu livro sobre desenvolvimento humano, comprado no meio da faculdade, e que resolvi olhar com mais atenção só agora.

R.J. Sternberg, em 1985, criou a "Teoria Triangular do Amor". Por mais que, de cara, pareça algo favorável à poligamia, não é bem isso o que o autor (ou autora, não sei) defende; a teoria fala, na verdade, que o amor possui padrões, e que eles sempre dependem de três elementos. Os três são: a intimidade, a paixão e o comprometimento.

E, assim, Sternberg fala do não-amor (quando não há nenhum dos três, e que abarca a maioria dos relacionamentos interpessoais), da afeição (só há intimidade), a paixão louca (só há paixão), o amor vazio (só há comprometimento). Também há o amor romântico (paixão e intimidade, porém sem comprometimento), o amor companheiro (intimidade e compromentimento, sem paixão) e amor ilusório (há paixão e comprometimento, mas não intimidade). E, claro, o amor consumado (paixão+intimidade+comprometimento, que é, segundo Sternberg, mais fácil alcançar do que manter).

A princípio, pensei ser muito reconfortante olhar assim, categorizadas, as formas de amar e se relacionar - e que, imagino eu, só podem ser definidas depois de algum tempo. No entanto, logo comecei a ficar um pouco confusa: como podemos dizer que amamos um amor de tipo "vazio"? Será que o amor só por comprometimento, sem intimidade nem paixão, pode ser chamado de amor? A mesma coisa para o amor ilusório, e assim vai. Talvez o amor companheiro e o amor romântico sejam mais aceitos. Porém, olhando-os em categorias, vemos que eles ainda são capengas: nenhum chega aos (tri)pés do amor consumado. Hoje, com tantas pessoas tentando (co)existir, fica difícil ser único; por isso, nos especializamos cada vez mais em uma coisa só. O amor pode ser especializado?

E aí, será que é amor? Será que amamos? Não sei... Talvez aquela propaganda de perfume possa me responder, assim que eu comprar um frasco, irresistível e deliciosamente desenhado. Mas aí já não sei se quero saber; talvez esse amor engarrafado não faça o meu tipo. E nem aquele outro.

Fico sem saber.