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terça-feira, 24 de março de 2009

Menina veneno - uma análise


Meia-noite no meu quarto, ela vai subir
ouço passos na escada, vejo a porta abrir
um abajur cor de carne, um lençol azul
cortinas de seda, o seu corpo nu


Menina veneno, o mundo é pequeno para nós dois
em toda cama que eu durmo
só dá você


Seus olhos verdes no espelho brilham para mim
seu corpo inteiro é um prazer
do princípio ao fim
Sozinho no meu quarto
eu acordo sem você
fico falando pras paredes
até anoitecer


Menina veneno, você tem um jeito sereno de ser
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer


Meia-noite no meu quarto
ela vai surgir
eu ouço passos na escada
eu vejo a porta abrir
Você vem não sei de onde
eu sei, vem me amar
eu nem sei qual seu nome
mas nem preciso chamar


Menina veneno, o mundo é pequeno

demais pra nós dois
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer
Menina veneno ... (Ritchie)



O que a gente primeiro percebe na música uma é exacerbação da sensualidade, ou seja, do que é impresso através das sensações e dos sentidos: audição ("ouço passos na escada / ela vai subir"), visão ("vejo a porta abrir", "seus olhos verdes no espelho brilham para mim"), tato ("cortinas de seda"), olfato e paladar, por vezes implícitos ou gerais ("seu corpo inteiro é um prazer"), que fazem com que o ouvinte crie imagens cinestésicas ao longo da música, culminando em um cessar do sensual para dar lugar ao entorpecimento ("toda noite no meu quarto / vem me entorpecer"), ou seja, o cessar dos sentidos, representando o ápice sexual. Este uso do cinestésico deixa transparecer um sutil caráter simbolista da música, já anunciado pelo uso de aliterações ("menina veneno", "cor de carne", "lençol azul"), que também auxiliam na cadência da música.

Com relação à narrativa, observa-se que a primeira estrofe fala da expectativa da chegada da "menina veneno" ao quarto; a segunda introduz a "menina" e a descreve como um convite sexual; a terceira fala do desfecho do encontro, em que ela se vai; e a quarta traz o prólogo, em que subentende-se que ela vai retornar (tanto que o início da estrofe é semelhante ao início da primeira estrofe), caracterizando o enredo circular da música, também indicado pela constância da bateria, sem circunvoluções ou reviravoltas.

A menina veneno é objeto de prazer para o eu-lírico, e sua real identidade realmente não importa ("você vem não sei de onde", "eu nem sei qual seu nome"), indicando um certo distanciamento afetivo entre os dois. Tal jogo erótico parece ser consentido e acordado entre eles, o que não necessariamente implica que ambos compartilhem o prazer: em nenhum momento pode-se ter certeza de que ela compartilha o arrebatamento sentido e descrito pelo eu-lírico (ela chega a deixá-lo durante a noite: "sozinho no meu quarto / eu acordo sem você").


***


Leitores mais críticos ou atentos provavelmente estão se perguntando que raios de postagem é essa, com uma análise musical e literária de uma música que, de tão bem que funcionou, virou kitsch (Adendo: como conta Milan Kundera, a origem do kitsch tinha a ver com negar a merda, ou seja, negar o que é humano. O kitsch era algo sublime, um ideal estético. Para ele, "antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento". E, em alemão, kitsch significa pura e simplesmente lixo).
Na verdade, aqui não há nenhum motivo implícito para que eu tenha feito tal análise; foi um favor, um convite aceito, um agrado, um prazer -na verdade, um trabalho de faculdade que não é meu... Venho, sim, pensando no significado das músicas e estou trabalhando numa postagem a respeito (próximos capítulos...). Quanta coisa! Mas vale levantar a questão: por que será que essa música toca as pessoas, de um jeito ou de outro? Quem não a conhece, pelo menos no refrão, de cor e salteado? Fazendo essa análise, passei a olhá-la sob um novo olhar, mais respeitoso e compreensivo (pelo menos um pouco). Porque dela se despreendem chamarizes do que nos é instintual; e é isso que faz a "menina veneno" um torpor que não vê sexo -muito menos escolha sexual.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sobre vampiros e lobos (ou Por que gosto de Crepúsculo parte I)


Os livros da escritora americana Stephenie Meyer, "Crepúsculo", "Lua Nova", "Eclipse" e "Amanhecer" (este ainda não lançado no Brasil) têm sido o fenômeno de vendas e, conseqüentemente, de notícias em sites e de bilheteria (o primeiro filme estreou em dezembro).

A série narra a história de Bella, uma adolescente comum que vive na chuvosa e sombria cidade de Forks e se apaixona por um colega de sala misterioso, Edward. Ela logo descobre que ele é um vampiro e, com isso, dotado de características como: ser incrivelmente forte; ser incontestavelmente ágil; não poder sair no sol pois sua pele clara e gelada como pedra ofuscaria a visão; não comer; não dormir; ter mais de 100 anos (vai à escola pra disfarçar, já que foi transformado aos 17 anos); e conseguir ler os pensamentos de todos ao seu redor, menos os dela.

O amor que nasce entre os dois é cheio de percalços -primeiro, ele tem dificuldade em resistir ao odor extremamente adocicado do sangue da menina e, por isso, tem medo de feri-la; depois, ela deseja se tornar uma vampira, assim como Edward e sua família, mas ela também tem sua família pra deixar pra trás; além disso, ela ainda consegue se envolver com uma alcateia de lobisomens, dentre eles seu melhor amigo, Jacob, um rapaz da colônia indígena. Lobisomens são inimigos naturais dos vampiros. E essa inimizade aumenta quando Jacob deixa transparecer suas segundas intenções com Bella, deixando-a bem confusa -ainda que negue este fato -entre um vampiro caucasiano, gélido, romântico e de traços perfeitos e um pele-vermelha divertido, quente e cheio de pegada amigo-lobisomem (que só deixa de ser humano em momentos de muita fúria).

Acho que está bem claro, pelo tamanho da minha descrição, que sou fã da série. Estou no último capítulo do terceiro livro, pensando em ler o quarto em inglês, como já fiz com o segundo (sob patrocínio da minha prima, Cá, hehe) . Sem querer cair na comparação óbvia entre estes livros e os da J.K. Rowling (que, pra começar a diferenciar, é inglesa, diferentemente da Meyer), prefiro falar sobre aspectos particulares desta história de amor e fantasia, partindo da minha experiência pessoal e, claro, da Psicologia.

Contardo Calligaris, psicanalista, escritor e colunista da Folha de São Paulo, escreveu sobre o assunto (bom entendedor, ele já leu os quatro livros!). Ele indagou quais seriam os motivos para histórias de vampiros, vez ou outra, ressurgirem com toda a força no imaginário do povo (especialmente, talvez, os jovens) e lotarem as estantes de locadoras e livrarias com imagens de seus olhos sedutores e dentes afiados. E, então, deu sua leitura sobre a atração por estes seres míticos, leitura tal que me fez pensar bastante até que eu pudesse colocá-la aqui no meu Infinito e, ainda, acrescentar alguns pensamentos meus.

Dada minha descrição anterior sobre Edward, podemos ao menos prever que ser um vampiro corresponderia a uma grande ajuda e alívio na vida de um adolescente: é praticamente invencível frente a qualquer inimigo; tem um corpo perfeito que não muda a todo instante e, mais do que isso, 1) não precisa ser satisfeito com necessidades como tomar banho, comer, dormir, e 2) é imortalmente perfeito, eternamente jovem e vigoroso, não envelhece jamais; é sedutor e conquista quem quiser; é noturno (quem nunca voltou do colégio e capotou no sofá a tarde toda, sem conseguir dormir depois por ficar no msn?); é cheio de segredos que simples humanos não poderiam entender.

Mais do que desejo de ser como um vampiro (ideal de ego, ou de self), há uma identificação com o vampiro: nos sentimos, muitas vezes, tão invencíveis quanto eles, achamos (negando o que é real) que coisas ruins não vão acontecer conosco, pois nossa grama é que é a mais verde.

E os lobisomens? Calligaris não chegou a comentar sobre eles (provavelmente porque ele é menos enxerido do que eu, que já estou adiantando o segundo filme, "Lua Nova", ainda sem previsão), mas penso que eles também sejam um outro lado da adolescência. Quando se vira lobisomem, o corpo fica mais forte e cheio de pêlos, os sentimentos de fúria e emoção intensos são freqüentes e podem causar estragos, dorme-se muito e a temperatura é muito "quente" (como os hormônios muitas vezes nos deixam...). A comunicação entre os lobos de uma alcateia, mais do que verbal, é pelos pensamentos. A psique coletiva domina o grupo, pensa-se não individualmente, mas em conjunto. Não é a imagem do grupinho uniformizado que vemos atravessar a rua, divertido, no horário do almoço?

Acho que é fácil se identificar assim com a personagem principal: alguém que oscila entre o desejo mais intelectualizado e maduro de se fundir com um alguém que personifica o ideal de perfeição (e toda a mesmice e não-me-toques que ela pode trazer) e o desejo mais instintual e infantil de se divertir o mais livremente possível, sem amarras ou códigos de lei. Não é à toa que dizem que a adolescência é o intermezzo entre a criança e o adulto, mas que, (in?)felizmente, não há um Muro de Berlim que separe um do outro. Pelo contrário, é a contradição e a contravenção que definem a adolescência. É tudo o contra. O contra do quê? Confuso. Difuso.
***

Além da intensidade dos personagens, claro, é importante considerar o jeito de contar a história: Meyer coloca Bella como a narradora, e através dela sabemos todas as confusões que permeiam seus diálogos com o pai, com o novo amor, com os amigos do colégio (junto com os quais ela se sente pouco à vontade, tão atraída que é pelo que é diferente, misterioso e até sobrenatural). Vemos suas mudanças de atitude, nem sempre as mais certas ou sensatas, geralmente seguidoras de suas emoções. Bella faz rir, dá raiva, seduz, envergonha, causa inveja... Mas aí já é assunto pra próxima postagem.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Análise psicológica de Sweeney Todd e Sra. Nellie Lovett


"Você roubou meu sossego.

Você roubou minha paz!

Com você eu vivo a sofrer

Mas sem você vou sofrer muito mais

Já não é amor, Já não é paixão

O que eu sinto por você é obsessão" (Orquestra Imperial, "Obsessão", Milton De Oliveira e Mirabeau)


Férias, jiboiar na frente da tevê, tirar o atraso dos filmes que queria ver. Um deles era o "Sweeney Todd - o barbeiro demoníaco da Rua Fleet". Não sei se foi pela boa companhia ou se isso foi apenas a cereja do bolo, mas adorei! Fiquei pensando nele por alguns dias ainda, o que, pra mim, é um bom sinal -sinal de que fui "afetada" pelo filme, ou seja, o filme me provocou algum tipo de afeto. Qual afeto? Não sei explicar. E nem quero.
Mas não explicar não me impede de elucubrar, viajar em cima de algumas questões que foram surgindo enquanto assistia às ótimas atuações do Johnny Depp e da Helena Bonham Carter, respectivamente o demoníaco barbeiro e sua assistente. Aliás, já sendo honesta: na minha opinião, a Sra. Lovett rouba a cena em muitos momentos. E é por isso que é sobre ela que escreverei aqui.
(agora é hora de você perguntar por quê eu incluí o Mr. Todd no título se vou falar apenas de sua assistente. E eu, então, respondo com a pergunta: se eu não colocasse, você saberia quem é a Sra. Nellie Lovett? Duvido!)
Resumindo a história: Sweeney Todd é um barbeiro da velha Inglaterra, que foi exilado por um juiz que queria ficar com sua bela mulher e sua filhinha. Ele retorna quinze anos depois, com um nome falso e alguns parafusos a menos, disposto a se vingar e ter de volta suas amadas. No caminho, descobre uma aliada, a Sra. Lovett, que lhe informa que sua mulher se envenenou. Ele, surdo de tristeza e de loucura, nem escuta Sra. Lovett cantar em seu ouvido: Se você ao menos soubesse, Sr. Todd ("My friends"). Já ela, cega de amor, não vê ou não se importa em responder como se fossem para ela os carinhos tecidos por Todd e dirigidos não a ela, mas sim a suas navalhas de prata.

No entanto, ela, diferentemente do que definimos como sinais de amor, como respeitar a identidade do outro, aceitando-o como é, parece muita vezes manipular Sweeney, atuando como uma parte faltante, um ego auxiliar, alguém que responde por seus atos. Por outro lado, ela também se deixa influenciar por ele, por vezes fazendo coro a suas atitudes (como zombar de Pirelli, o barbeiro estrangeiro).

Os dois se envolvem um ao outro, num processo fusional que é mostrado pelas roupas, sempre em tonalidades escuras contrastando com a pele branca e os olhos fundos. O tom cinza, na verdade, toma conta do filme todo (créditos a figurinistas, cenografistas e etcistas), num jogo de luz e sombra que parece destacar a ambivalência do ser humano, com seus momentos de lampejo e de escuridão. E, como bem comentou um amigo meu (:P), a única cor que realmente vive e brota nos habitantes da cidade é a cor do sangue, vermelho e brilhante, como que acumulando vida enclausurada naqueles corpos -neste sentido, o que Todd faz com seus clientes seriam redenções, e não assassinatos.

Voltando à Sra. Lovett. Em uma das músicas, ela canta sua solidão fazendo as piores tortas de Londres ("The worst pies in London"). Ela se sentia sozinha, carente e, dessa forma, nada do que produzisse, que fizesse com suas próprias mãos, poderia sair saboroso. Talvez, mais do que a carne humana posteriormente adicionada em suas receitas, era a companhia de um pseudo-marido e de um pseudo-filho o tempero que faltava para que ela pudesse se sentir provedora novamente. Não à toa, para a psicanálise, o forno é um símbolo relacionado à fertilidade, ao útero.

A relação com Toby, menino órfão que ela cuida, alimenta e de quem recebe amor e devoção incondicionais, é das mais tocantes. Enquanto ele, numa bela declaração de amor, canta que ninguém lhe fará mal enquanto ele estiver por perto ("Not while I´m around"), ela, confusa pelo amor que sente pelo menino e a obsessão que a impede de ver o lado sombrio e insano de Todd, canta para ele e tenta distrai-lo. Ela não tem forças para, na hora necessária, matar o filho, mas o deixa trancafiado num lugar cheio de tortas feitas por ela. E, quando Todd quer matá-lo, Nellie Lovett tenta impedi-lo, mas depois o ajuda a procurá-lo, tentando enganar Toby com a mesma canção que ele lhe dedicou.

Já no início do filme, a personagem de Helena Bonham Carter fala sobre o ex-marido num misto de saudade resignada e ironia: ele vivia sentado na cadeira devido à gota. Não dá pra saber se ele realmente morreu ou se foi morto -fica por conta da imaginação. E será que, quando casada, ela já nutria um amor por Sweeney? Como ela poderia ter percebido de cara que ele, na verdade, era o barbeiro outrora feliz e apaixonado, sem vê-lo por quinze anos? Por vezes se tem a impressão de que todos os seus atos são calculados. Em outros momentos, vê-se uma mulher perdida pelo medo de perder o pouco que tem, desesperada e cega pela obsessão. E é essa riqueza de "afetos" que a torna tão intrigante.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Uma análise psicológica de Amy Winehouse

[Caricatura de Stevero, no site desenholegall.blogspot.com]

"Understand,
Once he was,
A family man.
So surely,
I would never,
Ever go through,
It first hand
Emulate all
The shit my mother hated.
I can't help,
But demonstrate
My Freudian fate." (Amy Winehouse, "What is it about men")

Eu, assim como os milhões de fãs da Amy -e também os puros voyeuristas e sádicos -acompanho quase todas as notícias de quando ela dá vexame em show, ou é flagrada usando drogas, ou declara amor pelo marido preso, ou é levada pelo pai a uma clínica de reabilitação ("yes, yes, yes"). Imagino que muitos e muitos blogs tenham alguma postagem falando sobre ela, e meu Infinito não vai ficar pra trás. Mas pensei em fazer algo que está mais à minha alçada: uma análise psicológica de Amy Winehouse.
(aviso que, obviamente, essa análise é mais pra entretenimento do que pra qualquer outra coisa que caberia a um psicólogo... don´t take it too seriously!)

Primeiro de tudo, algo óbvio: existe algum conflito edípico que não foi suficientemente resolvido. Complexo de Édipo total. Pra quem não sabe, Freud usou o mito do Édipo-rei pra mostrar a relação que se forma com nossos pais quando somos bebês. O filho ama a mãe e sente raiva do pai por este já ser o dono dela, então só lhe resta procurar outra mulher para si e tentar ser parecido com o pai para achar uma mulher parecida com a mãe. No caso da Amy, parece claro que, no fundo, ela ainda quer muito o carinho, a atenção, o amor do pai. É ele quem ela busca quando está na pior (e olha que não são raros momentos não!). É o Sr. Winehouse quem socorre a filha, conversa com ela e a convence a se internar, é ele quem a protege da mídia, é ele quem a abraça pra entrar no carro. Por isso Amy, inconscientemente, buscou um marido que não pode estar com ela (o Blake está cumprindo pena na prisão): assim, o pai pode cuidar dela sem ninguém inconveniente-como um marido -para atrapalhar. Ela faz declarações para o Blake porque ele é o marido que ela queria: um marido que está lá, preso, e não perturba.

O abuso de álcool (seu próprio nome já diz: Winehouse=em inglês, casa de vinho, adega; e Amy=do francês ami, amigo) e drogas é uma conduta anti-social que, segundo Winnicott -um psicanalista que estudou a delinqüência-, é uma forma da pessoa dizer ao mundo que algo lhe foi privado, que não lhe deram algo de que ela precisava. Nesse momento, pergunto onde está a mãe da Amy. Nunca ouvi falar dela em nenhuma notícia: é viva, é separada do pai, fugiu de casa? O que faltou em sua vida que ela reclama através do uso de drogas? Pode ser a falta de uma mãe carinhosa, mas, partindo da hipótese de cima, pode ser também que o que lhe faltou foi justamente uma interdição, ou seja, uma mãe que dissesse: filha, você não pode ficar com seu pai pra sempre.

Quanto a suas letras, Amy apresenta um intenso sentimento de desesperança, beirando o cinismo. Isso se mostra, por exemplo, na letra da mais que conhecida"Rehab": The man [=o psiquiatra da clínica] said why you think you´re here (...) He said I just think you´re depressed, kiss me and go rest. Ou seja: não há crédito nenhum numa ajuda psiquiátrica ou psicológica. Isso demonstra que a Amy aproveitaria pouco de um trabalho de terapia. Chamamos isso de mau prognóstico.

Por outro lado, há uma esperança: a própria música. Freud denominou 'sublimação' o ato de deslocarmos energia para o fazer arte. É uma forma saudável e socialmente aceitável de, digamos, engolir sapos (poderíamos, ao invés disso, gastar compulsivamente ou então até matar alguém, mas a sublimação nos salva!). A saída para Amy dar conta de todas as angústias e 'terrores-sem-nome' que a atormentam só parece estar na concentração em criar canções ótimas como as que ela tem feito. E, quanto a nós, fãs, só nos resta torcer para que dê tudo certo. E que a Amy até vá de volta para o escuro, mas que ela retorne ao claro todas as vezes.

domingo, 23 de março de 2008

Páscoa (ou postagem polêmica)


[Imagem: "O sacramento da última ceia", Salvador Dalí]


Hoje é Páscoa.


Não sei explicar direito o por quê, mas esse feriado pra mim geralmente é meio triste. Não lembro uma páscoa em que eu, de alguma forma, não tivesse ficado meio chateada, nem que seja por uns instantes. Uma vez, comentei isso com uma amiga (por sinal, uma daquelas amigonas do peito, daquelas de infância e de coração) e ela me disse que seu pai também tem essa sensação. Achei engraçado e, desde então, nesta época, tento pensar nos motivos que fariam o pai de uma amiga e eu termos em comum essa sensação melancólica na ressurreição de Cristo.


Começando pelo mais óbvio -caro Watson-, posso pensar no próprio significado da Páscoa, explicitado ali no final do parágrafo de cima. Pensar que alguém ressucitou é, talvez, lembrar que a pessoa antes teve que morrer e, no caso, não foi uma pessoa qualquer nem uma morte qualquer; Jesus foi morto e crucificado. O fato de Cristo ter ressucitado para nos salvar envolve, no mínimo, dois sentimentos: gratidão e culpa. Daí poderia vir meu sentimento ruim. A amarga culpa, com gosto de babosa (nunca experimentei, mas meu avô disse que é amarga).


Fazendo o samba do crioulo doido, os dois sentimentos de que falei me lembram de uma psicanalista chamada Melanie Klein, bem menos conhecida que o paizão Freud, mas que pra nós é bem conhecida (e causadora de embates: ou você a ama ou a odeia). Outro dia -se pá -eu falo da vida dela, que é bem interessante. Mas hoje quero falar somente um ínfimo que sei de uma parcela da teoria dela sobre inveja e gratidão. Para Klein (grosso modo!), nós, quando bebês, sentimos inveja da mãe por ela ser portadora de tudo o que é bom: leite, calor e o amor do daddy. Dependemos dela, e isso é irritante. Resultado disso é a atacarmos de algum modo simbólico e sentirmos de volta essa agressão, sem percebermos que essa raiva, na verdade, está em nós mesmos. Isso acontece até sermos maduros o suficiente para nos darmos conta do que rola, sentirmos culpa e, conseqüentemente, gratidão por essa mamãe que nos mantém vivos. Aí passamos, diga-se, para um "estado mais elevado do ser". Isso acontece com (quase) todos nós.


Enfim, a Páscoa pode ser um momento feliz, por envolver um fato glorioso da bíblia e também, hoje em dia, por ser um feriado prolongadão. Mas ela também me faz triste. E ao pai da minha amiga também. Pode ser do nosso sentimento de culpa por não sermos perfeitos e, por isso, termos sido salvos por alguém muito melhor do que nós. Alguém pleno como a mamãe. Alguém a quem devemos gratidão enorme, pois, mais do que nos dar leite, nos deu sua vida. Pode ser também por muitos outros motivos.





Caracas, viajei nessa postagem... Deve ter sido overdose de chocolate!