
Meia-noite no meu quarto, ela vai subir
ouço passos na escada, vejo a porta abrir
um abajur cor de carne, um lençol azul
cortinas de seda, o seu corpo nu
ouço passos na escada, vejo a porta abrir
um abajur cor de carne, um lençol azul
cortinas de seda, o seu corpo nu
Menina veneno, o mundo é pequeno para nós dois
em toda cama que eu durmo
só dá você
Seus olhos verdes no espelho brilham para mim
seu corpo inteiro é um prazer
do princípio ao fim
Sozinho no meu quarto
eu acordo sem você
fico falando pras paredes
até anoitecer
Menina veneno, você tem um jeito sereno de ser
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer
Meia-noite no meu quarto
ela vai surgir
eu ouço passos na escada
eu vejo a porta abrir
Você vem não sei de onde
eu sei, vem me amar
eu nem sei qual seu nome
mas nem preciso chamar
Menina veneno, o mundo é pequeno
demais pra nós dois
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer
Menina veneno ... (Ritchie)
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer
Menina veneno ... (Ritchie)
O que a gente primeiro percebe na música uma é exacerbação da sensualidade, ou seja, do que é impresso através das sensações e dos sentidos: audição ("ouço passos na escada / ela vai subir"), visão ("vejo a porta abrir", "seus olhos verdes no espelho brilham para mim"), tato ("cortinas de seda"), olfato e paladar, por vezes implícitos ou gerais ("seu corpo inteiro é um prazer"), que fazem com que o ouvinte crie imagens cinestésicas ao longo da música, culminando em um cessar do sensual para dar lugar ao entorpecimento ("toda noite no meu quarto / vem me entorpecer"), ou seja, o cessar dos sentidos, representando o ápice sexual. Este uso do cinestésico deixa transparecer um sutil caráter simbolista da música, já anunciado pelo uso de aliterações ("menina veneno", "cor de carne", "lençol azul"), que também auxiliam na cadência da música.
Com relação à narrativa, observa-se que a primeira estrofe fala da expectativa da chegada da "menina veneno" ao quarto; a segunda introduz a "menina" e a descreve como um convite sexual; a terceira fala do desfecho do encontro, em que ela se vai; e a quarta traz o prólogo, em que subentende-se que ela vai retornar (tanto que o início da estrofe é semelhante ao início da primeira estrofe), caracterizando o enredo circular da música, também indicado pela constância da bateria, sem circunvoluções ou reviravoltas.
A menina veneno é objeto de prazer para o eu-lírico, e sua real identidade realmente não importa ("você vem não sei de onde", "eu nem sei qual seu nome"), indicando um certo distanciamento afetivo entre os dois. Tal jogo erótico parece ser consentido e acordado entre eles, o que não necessariamente implica que ambos compartilhem o prazer: em nenhum momento pode-se ter certeza de que ela compartilha o arrebatamento sentido e descrito pelo eu-lírico (ela chega a deixá-lo durante a noite: "sozinho no meu quarto / eu acordo sem você").
***
Leitores mais críticos ou atentos provavelmente estão se perguntando que raios de postagem é essa, com uma análise musical e literária de uma música que, de tão bem que funcionou, virou kitsch (Adendo: como conta Milan Kundera, a origem do kitsch tinha a ver com negar a merda, ou seja, negar o que é humano. O kitsch era algo sublime, um ideal estético. Para ele, "antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento". E, em alemão, kitsch significa pura e simplesmente lixo).
Na verdade, aqui não há nenhum motivo implícito para que eu tenha feito tal análise; foi um favor, um convite aceito, um agrado, um prazer -na verdade, um trabalho de faculdade que não é meu... Venho, sim, pensando no significado das músicas e estou trabalhando numa postagem a respeito (próximos capítulos...). Quanta coisa! Mas vale levantar a questão: por que será que essa música toca as pessoas, de um jeito ou de outro? Quem não a conhece, pelo menos no refrão, de cor e salteado? Fazendo essa análise, passei a olhá-la sob um novo olhar, mais respeitoso e compreensivo (pelo menos um pouco). Porque dela se despreendem chamarizes do que nos é instintual; e é isso que faz a "menina veneno" um torpor que não vê sexo -muito menos escolha sexual.
Na verdade, aqui não há nenhum motivo implícito para que eu tenha feito tal análise; foi um favor, um convite aceito, um agrado, um prazer -na verdade, um trabalho de faculdade que não é meu... Venho, sim, pensando no significado das músicas e estou trabalhando numa postagem a respeito (próximos capítulos...). Quanta coisa! Mas vale levantar a questão: por que será que essa música toca as pessoas, de um jeito ou de outro? Quem não a conhece, pelo menos no refrão, de cor e salteado? Fazendo essa análise, passei a olhá-la sob um novo olhar, mais respeitoso e compreensivo (pelo menos um pouco). Porque dela se despreendem chamarizes do que nos é instintual; e é isso que faz a "menina veneno" um torpor que não vê sexo -muito menos escolha sexual.


