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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Oscar 2014: Jasmine, Dr Stone e Alabama (não, não são princesas da Disney)



Estes foram os três primeiros filmes indicados ao Oscar 2014 aos quais assisti. A ideia era escrever um post para cada um, mas na hora cotidiana mais propícia ao insight - o banho nosso de cada dia -, percebi alguns laços que poderiam render alguma reflexão.

De cara, os filmes têm mulheres no centro da trama, personagens extremamente distintas entre elas. Dr. Ryan Stone, de "Gravidade", personagem vivida a duras penas (ainda que impecavelmente) por Sandra Bullock, é uma engenheira médica em sua primeira missão espacial. Séria, racional, ela de início mostra-se sensível apenas às desagradáveis sensações de enjoo e mal-estar causadas pela ausência de gravidade. Aos poucos, se vê dependendo da ajuda de um astronauta experiente, do qual recebe as coordenadas para sobreviver a um acidente do qual ela é a única sobrevivente. Para isso, precisa chegar ao extremo, identificando o que é imprescindível para se manter viva, encontrando suas verdades e desapegando-se de todo o resto. 

Jasmine, brilhantemente encarnada por Cate Blanchett, de "Blue Jasmine", é uma tipica personagem neurótica de Woody Allen em diversos aspectos. Racionalizações, ansiedade frente às fantasias sobre como seu eu se apresenta ao outro, angustia e um enorme impacto emocional causado por qualquer abalo de mínimo grau são constantes. Porém, ela ainda tem que lidar, com pouco sucesso, com um sentimento dos mais pesados, aquele que sussurra no ouvido palavras de julgamento e punição - a culpa.

Alabama, ou antes Elise, visceralmente desenhada por Veerle Baetens em "Alabama Monroe", é uma tatuadora, ela mesma cheia de (lindas) tatuagens, de pele grossa e voz doce. Em um certo momento, somos levados a descobrir que vários desenhos de seu corpo eram antes declarações a amores antigos, que ela apagou (jogando tinta e transformando em outra coisa) quando terminaram. E é assim que Alabama tenta fazer: apagar, mudar, transformar suas perdas. Mas a epiderme é superficial demais, e transformar sem profundidade não apaga marcas que alcançam outros tecidos, órgãos, código genético, como duramente constatam ela e seu par, o (charmoso, mas não unânime) tocador de banjo, homem da ciência, ateu Didier.

As perdas que a vida pautou a Ryan, Jasmine e Alabama são irreparáveis. Jamais deixarão de gritar em suas memórias, em sua saúde, em suas relações. Além de vitimas da traição da vida, como Alabama diz, elas são também exiladas em seu sofrimento. São pessoas que, em um certo momento, se veem sem um porto seguro, emocional ou geográfico. Entretanto, a partir deste ponto, onde os destinos das três se encontram, há a divergência; cada uma utilizará os recursos que lhe cabem para retomar a direção da própria vida. No rolar dos dados, as faces disponíveis: suportar, não suportar ou superar.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O mito da (bat)caverna




É um pouco estranho realizar o sonho de tirar novas férias em um intervalo de 3 meses, mas nada como a adaptação!
Hoje meu dia de férias incluiu uma boa caminhada ao sol, sorvete Hägen-Dazs e ajudar minha prima Luiza em um trabalho de escola. Matéria: Filosofia. Tema: analisar a alegoria da caverna platônica com uma obra cultural. Obra escolhida pela Luiza: The Dark Knight Rises. Abaixo, o que virou essa história...


"There is a prison in a more ancient part of the world. A pit where men are thrown to suffer and die. But sometimes a man rises from the darkness. Sometimes the pit sends something back."
(Há uma prisão numa parte mais antiga do mundo. Um poço onde os homens são jogados para sofrer e morrer. Mas as vezes um homem emerge das trevas. As vezes, o poço manda algo de volta.)

Em "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge", podemos associar a alegoria de Platão em níveis, do individual ao coletivo, constatando que a realidade é objetiva e subjetiva - ou seja, é da realidade apresentada por um outro (ou por um acontecimento) que podemos encarar e compreender a nossa própria realidade, moldada pelo que somos até aquele ponto. 

Em nível individual, é óbvio pensar na transformação pela qual a personagem Bruce Wayne/ Batman passa ao longo da trilogia. 

O filme começa com Wayne voluntariamente retirado da sociedade, após perder a esposa e assumir falsamente a culpa pela morte de Harvey Dent. Ficamos sabendo que, num passado distante, ele integrava um grupo chamado Liga das Sombras, cujo objetivo era treinar e capacitar as pessoas nas artes de luta e estratégia de combate, com o propósito final de "limpar Gotham City da escória". Quando Wayne descobre que isso envolve eliminar os cidadãos da cidade a um preço muito caro, ele decide abandonar o grupo (não sem antes incendiar o local de treinamento). O problema é que há um mercenário chamado Bane, também treinado pela Liga, disposto a continuar com os objetivos de destruir a Gotham cheia de vícios.

Vários personagens aparecem para Wayne como a "realidade" e tentam-no fazer encará-la. O policial Robin John Blake lhe conta que o orfanato não é financiado pelo grupo financeiro de sua família há dois anos, o detetive Gordon pede que ele ajude a cidade a livrar do mal que eles mesmo causaram. O ápice ocorre quando Alfred lhe pede que fique fora da luta contra Bane e tente viver sua vida, pois a esposa falecida que ele tanto honrava em luto e solidão estava pensando em deixá-lo antes de morrer; ao invés de convencê-lo, isso acaba aumentando o desejo de Wayne salvar a cidade novamente.

Além dele, podemos pensar outras personagens que "saem da caverna", como a Mulher-Gato, que percebe que sua realidade era maior do que fazer pequenos golpes e julgar quase como "direito" roubar os mais ricos. Podemos também pensar que o núcleo dos vilões da história é o único que não passa por uma transformação, não sai de sua "caverna": e é por isso que ficam presos em suas ideias, jogando com as palavras, sombrias.

No nível coletivo, é possível pensar que a própria sociedade de Gotham passa por uma transformação (ou pelo menos começa a se transformar). Afinal, como o vilão Bane comenta, "Eu sou um mal necessário"; não dá para dizer que os cidadãos são totalmente inocentes (como Ms. Tate comenta, "Inocente é uma palavra muito forte para falar de Gotham"). Não podemos negar que a violência e a destruição que são defendidas pelos vilões do filme podem, de fato, ser consequência do modo de viver daquela sociedade, ainda que não seja a justificativa para uma destruição. De qualquer maneira, vemos alguns fragmentos de revolta e de tentativa de lutar contra aqueles que tentam dominar e acabar com toda a cidade, e também vemos alguns cidadãos que fecham as portas de casa e não querem tentar fazer nada. A mudança pode ser através da luta, ou através de uma reflexão que venha apenas com o tempo.

E é aí que a análise individual se encontra com a análise do coletivo: podemos pensar que Bruce Wayne "mata" o Batman (Cavaleiro das Trevas, ou seja, da escuridão, das sombras) porque ele já não pode mais viver nas sombras. Ele viu que a realidade é maior, e talvez ele tenha percebido que Gotham precisa viver com as próprias pernas. E ele também.

O que devemos saber é que, uma vez que saímos da caverna, não há como voltar para ela. Pelo menos não voltamos como éramos antes, e sim transformados. Nosso olhar é outro, pois já vimos a realidade como ela é. E essa realidade, mesmo ela, não é imutável; ela se amplia conforme podemos conhecê-la e transformá-la. E, para sair da caverna, não podemos ser como as pessoas que se limitavam a rir ou não acreditar no homem do mito, que deixou de ver as sombras. Temos que abandonar os medos e ter a coragem de olhar por nós mesmos.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: O lado bom e/ou negro do humor (Django Livre e O Lado bom da Vida)



Sim, esta noite é o Oscar, e eu fatalmente não consegui assistir a todos os concorrentes antes da cerimônia para poder dar meus palpites com conhecimento de causa. Claro que meu otimismo (ou hipomania, emprestando esse termo psiquiátrico) não era tão grande (mania) a ponto de achar que veria todos os candidatos de todas as categorias (até porque muitos não estrearam no Brasil). Mas pelo menos entre os possíveis vencedores de Melhor Filme, eu gostaria. Mas não.

De qualquer forma, aqui vão os dois últimos candidatos que consegui ver em tempo: "Django Livre", de Quentin Tarantino, e "O Lado Bom da Vida", de David O. Russel. Além de eu ter gostado muito de ambos e, entre os que vi, torcer para um deles ganhar (mesmo apostando em "Argo" ou "Lincoln" pela lógica da coisa), são filmes que chamam a atenção porque um forte motivo em comum para que ambos funcionem muito bem é aquilo que denominamos "química" entre os atores.

Sim, porque além de todos os critérios primeiramente técnicos, um filme também funciona muitas vezes por aquela variável independente, aquela faísca que se forma não pelo friccionar mecânico de dois pauzinhos ou por uma boa escolha angular, e sim por algo que é observável apenas a partir do momento em que passa a existir -  não se pode prever, antecipar ou controlar.

À parte de ótimos roteiros, ótimas construções de diálogos em ambos os casos, Lawrence-Cooper e Foxx-Waltz funcionam (nesse último caso, até no nome a sintonia é praticamente uma mistura sonora). Apesar de toda a tristeza que é intrínseca aos temas (a escravidão, o transtorno mental, a separação forçada de um casal, a não-aceitação de uma separação, a violência, o preconceito, e assim podemos ir desencadeando outros subtemas), apesar de podermos sentir tudo isso nesses filmes, ainda assim somos capazes também de viver um sentimento sublime, que ajuda a amenizar o que dói - o humor. Para a psicanálise, por exemplo, um dos mecanismos de defesa mais elaborados, superior no sentido de que podemos utilizá-lo adequadamente conforme somos capazes. Às vezes voluntário e muitas vezes involuntário, o humor nos ajuda a trazer luzes coloridas aos nossos lados sombrios.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: As Aventuras de Pi (ou "De onde vem a calma", Los Hermanos)




Um desses filmes de discussão inesgotável, podendo ser explorado sob diversos ângulos, “As Aventuras de Pi”, para mim, já recebe menções sobre a tradução do nome, que poderia ter seguido fiel ao original, sem grandes problemas. “Life of Pi” se aproxima mais ao que, a partir do ângulo que escolhi, de fato se referem as situações/ “aventuras” que o personagem principal – Pi, cuja explicação do nome verdadeiro é um dos momentos divertidos na história – tem de enfrentar.

Explico. Há aqui os componentes necessários para a saga de um herói: perdas, sacrifícios, luta e a redenção. Porém, o filme não fala de um herói – Pi não tem nada a mais do que qualquer um de nós; nem superpoderes, nem inteligência extraordinária, a não ser uma curiosidade algo descomunal por diferentes religiões. Na verdade, o que ele quer entender é como podemos acessar Deus, essa força maior que as religiões tentam explicar por meio de suas histórias. Apenas isso. E não há nada mais anti-herói e mais humano.

E o que seria Richard Parker? Bem, para minha prima caçula, Luiza, o tigre seria “uma parte dele mesmo” – a agressividade, a força, o que é instintual. Ou poderia também representar o equilíbrio necessário em nossas vidas: sem o tigre lhe ameaçando e ao mesmo tempo lhe ocupando o tempo e a mente, Pi sabiamente percebe que não sobreviveria aos 227 dias no meio do mar. Richard Parker poderia, portanto, estar dentro ou fora de Pi. Poderia ser seu lado sombrio e regido pela ódio, ou poderia ser aquele trabalho difícil, aquele recorde a ser superado, aquele tratamento de fertilização.

Ao longo do filme, me pegava pensando que jamais seria uma sobrevivente de um naufrágio. Sério. Não teria a paciência e tranquilidade dosadas com atenção e energia necessários. Jamais, jamais (esse segundo em sotaque francês pra dar mais ênfase) conseguiria. Depois, constatei que “A vida de Pi” (tradução livre, como se dizem) é uma linda metáfora sobre a vida, no melhor estilo oriental que conhecemos. E, sendo assim, posso muito bem ser capaz de enfrentar meus próprios tigres – pois o que realmente importa, o que realmente somos, é independente do percurso que escolhemos, de modo que a nós cabe definir o andamento da própria história.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: Os Miseráveis



There was a time when men were kind
When their voices were soft
And their words inviting.
There was a time when love was blind
And the world was a song
And the song was exciting.
There was a time ... then it all went wrong
(...)
But the tigers come at night,
With their voices soft as thunder,
As they tear your hope apart
As they turn your dreams to shame

["I dreamed a dream", música de Claude Michel-Schonberg, 
letra em inglês de Herbert Kretzmer]


Para mim, a música-chave de "Os Miseráveis" (mais do que emocionante na interpretação de Anne Hathaway) é como um prelúdio que narra o que acontecerá ao longo do filme. Mais ainda, é uma sinalização do que está por detrás de um enorme sentimento de estranheza que permeou minha sessão, e a qual pude começar a decifrar somente após algum tempo. 

A estranheza que me saltava aos olhos, que me fazia questionar - afinal - que pessoas eram aquelas e por quê elas eram tão diferentes de mim, de nós, consistia na coragem (ali exibida por todos os personagens) em assumir e lutar por aquilo em que se acreditava: um novo curso de vida, uma justiça a ser respeitada, uma outra organização social e política, o nascer dum amor.



Em que parte da História essa coragem se perdeu?



Tenho a impressão de que o próprio filme traz uma ideia. Quando os jovens revolucionários franceses se veem sem o apoio da população e morrem, convictos do ideal de que após eles surjam outros - justificando assim suas mortes - talvez esses outros jamais tenham aberto suas casas, encerrados no que sempre esteve ali, atrás daquelas portas. 

O medo não é o oposto da coragem, e sim a inércia. Talvez, em algum momento ("then it all went wrong"), os riscos tenham sido minimizados. As escolhas passaram a valer menos. À morte coube menos da metade da glória que lhe era concebida e, assim, não havia mais o que bradar, ameaçando aquela que é inevitável.


As revoluções se desenvolvem em silêncio. Porém, quando a hora é indevida e o ato se silencia de modo prematuro, elas são consumidas pela própria energia. Implodem.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

De que é feita a beleza




Há quem diga que mulheres bonitas possuem uma maldição, que é a própria beleza. E esta, difícil de explicar, poderia ao menos ser compreendida dentro de um quê de mistério, sensualidade e volúpia - tudo isso "sin perder la ternura", que para o homem-filho é essencial. Soma-se também um componente essencial, que é a fagulha de vulnerabilidade, nem de mais, nem de menos, às vezes fisgada apenas num breve olhar.


Também se pode pensar que, para ser bonita, é preciso um mínimo de auto-conhecimento (pois só quem se conhece minimamente sabe o ângulo, o lugar, o músculo a ser contraído naquele exato momento, para ser bonita. Sim, beleza não é apenas um estado de graça, é também um estado de esforço consciente). Mas será possível ser igualmente bela sem nada saber de si? Talvez na posição mais extrema, que é aquela em se está tomada pela loucura. Nesse caso, a beleza subverte os requisitos triviais e assume outros, inexplicáveis pela lógica.



Acabei de assistir ao "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", adaptação de Beto Brant da obra literária de Marçal Aquino. Livro, aliás, que para mim tem um valor especial, dado que há (muitos) anos eu penso em ler, mas que, de fato, sempre ficou na via do pensamento. Talvez nao fosse a hora. No filme, Camila Pitanga é Lavínia, personagem que dá o tom da trama e, obviamente, dona dos "lindos lábios" do título. Esposa de um pastor numa comunidade predominantemente indígena no norte do país, Lavínia traz consigo o passado carregado de dores, experiências dúbias, decepções. Nada tão diferente do que acontece com outras mulheres belas na vida real; o risco de serem alvos de "farejadores de vulnerabilidade" é potencialmente semelhante ao risco de serem alvos de um amor intenso. E, mais complicado ainda, ambas as condições podem andar de mãos dadas.



No caso da personagem central do "Eu receberia...", a vulnerabilidade é ainda maior, posto que as experiências anteriores, de infância, fizeram marcas férreas na construção dos significados daquilo que é essencialmente humano, como a identidade própria e a sexualidade. Lavínia possui uma fileira de tijolos de gesso nas paredes de seu eu; um abalo sísmico, uma tempestade, até a iminência de um choque pode arruinar uma estrutura sustentada até então pela sorte.



Até o final do filme, não sabemos em que caixinhas Lavínia arquivava seus relacionamentos. E, por conseguinte, não sabemos quais serão suas reações frente às condições que ela mesma cria, ou que lhe são impostas (ou propostas?), pelo contexto em que vive. Reside aí o mistério, aquele necessário à beleza que comentamos no início do texto. A sensualidade e a volúpia, outros quesitos mencionados, são os maiores demônios da personagem, aqueles que ela não domina até o final, a não ser às custas de si mesma. E a ternura? A ternura é provavelmente o que não se perdeu e o que a manteve viva, apesar das baixas decorrentes de sua guerra interior.

domingo, 18 de dezembro de 2011

"Um Dia"


Difícil escrever sobre "Um dia", de David Nicholls, fazendo qualquer análise imparcial: seria o mesmo que escrever sobre um namorado novo sem deixar escapar um elogio sequer. O livro me prendeu da primeira página à ultima, e me manteve assim ao longo de alguns trechos relidos, e depois mais trechos, até que reli o livro inteiro, e alguns trechos mais de duas vezes. Paixão pura. É um livro para ler na praia, em casa, no metrô...
Alias, ontem li um comentário da Adriana Falcão na revista Vogue, dizendo que comprou o livro no aeroporto para ler durante um voo longo. Como todos, amou o livro; mas no capitulo 18, ao inves de chorar, sentiu raiva da decisão do autor pelo rumo da história. Bom, o que quero aqui é tentar entender, pelo ponto de vista de Jung, a escolha de Nicholls para este final.

Dexter Mayhew e Emma Morley são dois amigos, ela apaixonada por ele, ele sem se perceber apaixonado por ela. Vemos os dois a cada dia 15 de julho, às vezes juntos, às vezes separados, por 20 capítulos-anos. Os dois se conheceram na faculdade, e a partir da formatura cada um escreve seu caminho, por vezes muito diferentes entre si, porém mantêm o laço afetivo.

Jung criou os conceitos de "animus" e "anima", que representam nossos aspectos masculinos e femininos, respectivamente, e que estão ambos presentes em todos os homens e mulheres. Eles precisariam estar balanceados dentro de nós e, quando por algum motivo estivéssemos negligenciado um desses pontos, deveríamos nos atentar para seu significado. Esses alertas poderiam vir em forma de sonhos - por exemplo, as necessidades negligenciadas da anima viriam personificadas em uma figura feminina fragilizada.

Dos seus 20 e poucos aos quase 40 anos, vemos Dexter, com mais recursos financeiros, gastar tempo em viagens, namoradas e drogas, vivendo apenas para o presente. Naturalmente, sua carreira acaba sendo igualmente intensa e efêmera, em um programa de tv. Sabe fazer o papel de um jovem belo, rico e charmoso, mas não o papel de filho ao se deparar com uma mãe adoecida, e mais pra frente, repete o mesmo fracasso como pai de família. Ele representa as características do animus, arquétipo do masculino, com a impulsividade, a racionalidade imediatista necessária para a sobrevivência, mas que precisa ser equilibrado com outras características da anima.

Assim, acompanhamos Emma tendo que batalhar desde que pegou o diploma, vendo a poeira e o ketchup do restaurante mexicano em que trabalhava lambuzar sobre os sonhos que carregava desde a faculdade. Isso até se cansar, buscar uma profissão que mais se aproximasse de seus desejos, e finalmente começar a vislumbrar seu próprio caminho e ser reconhecida por seu esforço e talento. No caso, pode-se encontrar facetas da anima, como a sensibilidade e a temperança, o cuidado para com os seus e o recolhimento, e que apenas quando ela pôde ser mais "agressiva" pôde arriscar, se mostrar, e enfim conseguir realizar seu sonho.

Os caminhos de Dex e Em parecem sempre compensatórios: enquanto um inicia a vida adulta prorrogando os deveres e planejamentos a longo prazo, a outra precisa plantar as sementes para depois poder colhe-las com tranqüilidade. É como se houvesse uma balança entre os dois, e em um dado momento, os pesos invertessem.

Para Jung, há forças que se compensam e nos levam a uma homeostase, um equilíbrio. Para isso, teríamos que lidar com nossos desbalanços, que fazem parte da vida. Porém, o equilíbrio definitivo seria impossível; o que importa é o movimento que nos guia ao longo da vida em favor desse equilíbrio. A situação final (e ideal) seria conquistar a individuação, termo que ele usou para nomear a situação hipotética em que, grosso modo, estivéssemos totalmente conhecedores de nós mesmos e com nossos aspectos conscientes e inconscientes em harmonia. Algo como um nirvana eterno (até porque, Jung se interessava e estudou muito a filosofia oriental, presente em sua teoria).
Portanto, enquanto vivos, não poderíamos atingir este estágio. Assim, no momento em que anima e animus alcançassem seu balanço perfeito, ambos deixariam de existir como entidades distintas, restando o que está individuado. Um único ser.

Até que chegamos perto do aguardado capitulo 18, no qual vemos Emma e Dexter mais parecidos, mais próximos, e em uma situação que ela define como "não alegre, mas feliz", em que a serenidade contava mais do que a intensidade das emoções. Um equilíbrio, enfim, entre os dois símbolos do feminino e do masculino, personificados nas personagens, e que bem poderia representar o estágio da individuação. Mas a individuação, como já dito, não é humanamente alcançável: enquanto estivermos no percurso da vida, não podemos alcançá-la. E é talvez por isso que, a partir daquele momento, inevitavelmente, os dois tivessem que viver apenas dentro de uma pessoa só - um indivíduo, e não mais como Dex e Em, Em e Dex.



PS: se em um livro já é difícil sintetizar 20 anos de vida, imagine num filme. Então, se estiver na dúvida, aproveite as férias e esqueça a preguiça: leia o livro. E desculpe se minha tentativa de ser sutil sobre a história não foi tão sutil assim.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Aves e Marias


Estou muito envolvida com duas (ou quatro?) mulheres da arte com que tive contato semana passada. Elas me têm afetado tanto que apenas agora consigo colocar em caracteres (e assim organizar as penas da guerra de travesseiros por elas causada em minha mente).
Na Terça, conheci Tiê. Em meia hora, ouvi todas as músicas disponíveis no Youtube. Em mais uma hora e meia, já tinha ido à loja e encomendado o CD. "Sweet Jardim" é um álbum sucinto, singelo e, ao mesmo tempo, de uma sedução quase inocente (ouçam a faixa moulin-rougenesca "Te valorizo": http://www.youtube.com/watch?v=pM_8bCrmwtA&feature=relmfu ). Isso porque ele foi fruto de dois anos vivendo duas "personas", como ela mesma disse: trabalhando de dia com o músico Toquinho e, à noite, em um projeto musical de cabaré.
No Sábado, encontrei Nina, a bailarina interpretada, ou vivida, por Natalie Portman, no filme Cisne Negro ( http://www.youtube.com/watch?v=5jaI1XOB-bs ). Nina tem que encontrar em si mesma um lado reprimido para poder viver dois papeis muito cindidos: Odette, a rainha cisne ingênua e boa, e Odille, a gêmea má. É um trabalho quase que de "metainterpretação", se é que este termo pode existir: a atriz teve que ir ao seu limite para conseguir interpretar uma moça que precisa ir ao seu limite para conseguir interpretar. Assim como também pode ter sido este o tipo de trabalho realizado por Tiê naqueles dois anos antes de poder dar à luz seu primeiro disco.
Os entrelaces continuam. Nos nomes, as chaves: Tiê vem de "sabedoria", em japonês, e do pássaro, o pássaro tiê. Nina, a menina que não sabe ainda o que é ser mulher, toca este aspecto de seu ser quando vestida de pássaro, pássaro negro.
Tiê canta: "Como um brotinho de feijão/ foi que um dia eu nasci/ Despertei, caí no chão/ e com as flores cresci/ E decidi que a vida logo me daria tudo/ Se eu não deixasse que o medo me apagasse no escuro". Nina tem medo, porque o escuro está dentro de todos nós, e ele pode se sobrepor à luz.
Tiê continua: "Quando mamãe olhou pra mim/ ela foi e pensou/ que um nome de passarinho/ me encheria de amor/ Mas passarinho, se não bate a asa, logo pia/ e eu, que tinha um nome diferente, já quis ser Maria". Amor de mãe pode sempre ser amor, mas por vezes é um amor que corta as asas. Não é culpa da mãe, é culpa de Mãe. Voar é perigoso demais pro meu filhote, ao mesmo tempo é tão bom... Sinto falta de voar, mas não posso por causa do meu filhote. Além disso, é o papel da filha ir contra a mãe, achar um caminho próprio, que não necessariamente será melhor do que o que a mãe tentou traçar para ela, mas é um caminho dela. Não é culpa da filha, é culpa de Filha.
Em Cisne Negro, a mãe de Nina é uma bailarina frustrada. Vê a gravidez da filha como o impedimento para a realização de seu sonho de ser reconhecida na profissão. Porém, Nina argumenta que ela já tinha 28 anos, então não dependeria dela o fracasso da mãe, mas sim dela mesma, de sua capacidade. O que ela não questiona é se seu desejo de ser bailarina veio do desejo da mãe, ou de seu desejo de superá-la.
E, nos entremeios disso tudo, estou EU, em uma valsa de cordas, atando-me e desatando-me, buscando os nós que me parecerem pertinentes.

domingo, 9 de janeiro de 2011

“Dúvida” e “O castelo nos Pirineus”


Estou em meus últimos dias de férias e, tirando tempo para resolver alguns projetos, optei por recrutar a companhia de filmes que, em algum momento, estiveram na minha ”to watch list” e acabaram se perdendo (por falar em listas, em breve postarei alguma para celebrar este período de descanso). Aluguei três filmes ontem, incluindo “Dúvida”, de John Patrick Shanley, com o elenco de peso em torno de Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis (todos concorreram ao Oscar naquele ano), e que acabei de assistir.

Com certeza, falar do filme em si seria minimamente redundante: além de não ser novo, foi muito comentado. E realmente há o que se comentar: além dos atores incríveis, as tomadas dos domínios imponentes e simétricos de uma escola católica impõem o tom da autoridade, da rigidez e da ordem à qual as personagens – e seus destinos - são submetidas. Sem contar a extrema pertinência ao tratar de questões como intolerância, moralismo, dogma, incluindo até mesmo um discurso que justifique ações questionáveis e que prejudicam o outro (a personagem de Meryl Streep diz, em um certo momento: “Na luta contra o mal, nos afastamos um passo de Deus”, remetendo a discursos do ex-presidente americano). Isso tudo em um enredo complexo, em que novos fatos e novas defesas são acrescidos e mudam nossas opiniões a cada cena.

Porém, uma frase que me fez pensar em um dia como hoje foi a do personagem de Hoffman, Padre Flynn, no primeiro sermão do filme. Falando sobre nossas incertezas, humanos que somos, ele nos tranqüiliza com a frase: ”Doubt can be a bond as powerful and sustaining as certainty” (algo como “A dúvida pode ser tão poderosa e sustentadora quanto a certeza”).

Refletindo agora, esta frase tem conexão com um dos livros que li, orgulhosamente, nestas duas semanas no litoral: “O castelo nos Pirineus”, de Jostein Gaarder (sim, o autor de “O mundo de Sofia”, mas que merece crédito por suas demais obras também). De semelhança com o filme em questão, há que este livro gira em torno de duas personagens que discordam entre si, porém neste caso eles são ex-namorados que se reencontram após 30 anos e passam a trocar e-mails, debatendo suas divergências filosóficas (ela, com fé na transcendência espiritual; ele, no big bang) e, também, buscam ressignificar o evento marcante que os separou quando jovens. Um livro delicado, que em algumas páginas peca pelo excesso de informação sobre física quântica (há algum tempo, Gaarder passou a flertar com as ciências exatas quando não se contentou com o lado da filosofia), mas que consegue construir dois personagens-narradores tão diferentes, refletidos em seus discursos, e ao mesmo tempo tão cúmplices um do outro, dado o passado em comum. A segunda metade do livro, quando os mistérios são revelados, é lida em um fôlego, e o final é... bem, leiam o livro.

“A dúvida pode ser tão poderosa e sustentadora quanto a certeza”. Ora, na religião e em nossas crenças filosóficas primordiais (Quem sou eu? Para onde vamos? O que existe no Universo?), não há como se provar o que se acredita. Este não-saber remete o tempo todo à nossa impotência frente ao que é maior do que nós, e esse sentimento pode tanto nos fazer resignar frente ao que nos parece aceitável (ou os é dado como tal) e dá alento, quanto nos impulsionar para buscar superar e exterminar estas pulgas atrás da orelha. (Aliás, devo mencionar uma lembrança irresistível que acabei de ter: no livro “O dia do curinga”, Gaarder nos compara a pulgas atrás da orelha de um cachorro, que não sabem o que está além do que conseguimos ver – na verdade, não lembro se realmente era pulga e se era um cachorro, talvez fosse um coelho, mas a ideia era essa) Assim, as dúvidas acabam por se tornar nosso alicerce, ainda que eternamente corroído e inacabado; são elas que nos constroem e nos transformam, seja na religião, seja na ciência.

Mas não são apenas nestes questionamentos gerais, existenciais, coletivos, na falta de uma palavra melhor, em que a frase do Padre Flynn fez sentido para mim: na verdade, o que primeiro me veio à cabeça trata de um aspecto mais subjetivo, pessoal, íntimo: o desejo de cada um. “A dúvida pode ser tão poderosa e sustentadora quanto a certeza” – enquanto não somos preenchidos com o “monstro bege” do comodismo, movemos nossos braços, o corpo inteiro e até a alma em busca de uma segurança idealizada, que acreditamos ser o que queremos. Sim, um quê de segurança é bom; ouvir “sua saúde é de ferro”, “eu te amo” e “você fez um ótimo trabalho” podem deixar a pele melhor, cadenciar o ritmo de nossos pés, plantar um sorriso multiplicador em nosso rosto. Entretanto, é a sabedoria de que nenhuma destas certezas é eterna que nos mantém sempre em movimento.

Assim, parece que o que nos motiva não é necessariamente a garantia de algo eterno: nós também buscamos a dúvida, gostamos do que ela desperta, cutuca. Ela é a coceira que nos perturba, mas também dá prazer. E, diferentemente da certeza, seu departamento abarca as fantasias, as esperanças, e passa longe do desapontamento, da desilusão, do ressentimento – palavras tão parecidas que tentam exprimir o que a ausência do “Será...?” pode transmitir.

O quanto podemos viver em dúvida? Depende da braveza da pulga... e do grau de tolerância do cão.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Avatar, onde as mulheres não têm vez


Fui (atrasada, ok, mas eu já disse que estou de férias? hehehe) assistir "Avatar" 3D na tarde de ontem. Eu havia lido somente um pouco sobre o filme, e um dos comentários que ficaram gravados foi o de que James Cameron nos deu um "espetáculo para os olhos". Foi com esta expressão na cabeça que preenchi minhas expectativas e coloquei os óculos, no mínimo, empolgada.

Não me decepcionei. O filme é muito bonito e, claro, especialmente as cenas de voo (tanto dos personagens principais e seus animais alados cujo nome não guardei quanto de insetos e dos espíritos da Árvore Mãe). As pinturas de guerra e as tonalidades néon também ajudam muito, bem como os saltos vistos com câmeras ousadas e as cenas em que os avatares e os na'vis andam sobre os galhos a alturas imensas. Mesmo as metralhadoras e seus fogos são bonitas em 3D.

Não há como tirar os méritos de um trabalho tão cuidadoso, tão bem pensado, tão cultivado. Imagino o que deve ser dedicar anos para um projeto: a excitação, a sensação de controle, mas também a sensação de descontrole, o desânimo, a irritação, o enjoo. E, pra tudo dar certo, uma equipe enorme e um cérebro um pouquinho fora do comum (como provavelmente é o de James Cameron, comentário meu sem juízos de valor) contribuem demais.

Agora, a história. A história de Avatar não é mais do que se compreende de "Dança com Lobos", ou até "Pocahontas", ou tantas outras que falam de um intercâmbio cultural e a dificuldade de se entregar ao desconhecido frente a conflitos de interesses. A história feita por poucos, já que, por trás das decisões, existe a massa - o povo que, em uníssono, faz a voz de Deus e, também em conjunto, sofre as consequências gerais. Em Avatar, mostra-se também que, sem a união do povo, não se inverte uma posição desvantajosa. É sempre bom assistir à esperança coletiva, ainda que ela também possa, muitas vezes, transformar-se em exércitos.

Mas algo que me despertou lá pelas tantas do filme (que, aliás, é longo, doi um pouco a cabeça, mas tudo bem) foi o pensamento: "Ah, ok, há algumas personagens femininas no filme. Mas todas elas possuem uma força e um poder que não mostra o feminino tal como ele é. Mostra mulheres que tiveram que se adaptar a uma realidade dura, seja ela capitalista ou mítica, para poderem ser aceitas". Assim é Grace, a cientista durona, mas que também tem um lado materno ao alimentar Jake. Assim é a capitã que xinga, pilota helicópteros e se sacrifica pela causa. Assim é Neytiri, guerreira e que recebe o arco de seu pai moribundo. E assim é sua mãe, feiticeira respeitada por suas palavras que, na verdade, não são dela.

E é aí que reside a compensação desta falta marcada acima: o feminino reside totalmente em Eywa, a divindade maior dos Na'vi e a qual todos protegem, pois dela dependem para viver. São delas as palavras proferidas pela mãe de Neytiri. É a Mãe-Natureza o todo feminino do filme, eixo central do enredo, que sofre pela ganância dos homens e a falta de respeito por seu equilíbrio natural. Ela é mostrada como a maior prejudicada quando é incendiada e destruída, mas é também ela quem consegue revidar, reunindo a força de todos que dela dependem e que lhe são gratos (incrível, não são os seres humanos...!) para o golpe final.

Claro que Avatar chegou na hora certa, com o momento ecologicamente correto. Porém, também ali, é a guerra sendo vencida pela guerra. Na realidade, não sei se a Mãe-Natureza agiria por meio de exércitos ao invés de, talvez - quem sabe? -, enchentes e outros fenômenos que não são contra-ataques, mas sim consequências. Mas é que guerra é brincadeira de meninos grandes, e esse filme, no fim das contas, é para eles.

domingo, 29 de novembro de 2009

Entubados (ou aguardando Alice de Tim Burton)


Em um dos (atualmente) raros momentos de "curta-seu-hobby", estava eu tocando violão, quando meu pai decidiu afiná-lo. Eis que vai ao computador, entra na internet, digita "youtube.com" e coloca na busca: "afinar violão".
Eu, que pareço mais velha que meu pai (digo isso não por achá-lo velho, mas sim pela contradição da frase), acho que não vai encontrar nada, e comento que os vídeos deveriam apenas mostrar propagandas de afinadores portáteis, ou algo que o valha. Eis que, do quarto de passar, ouço uma voz masculina explicando qual casa dedilhar para afinar a primeira corda, e então um som: dooong. E assim vai, mostrando passo-a-passo o processo que escuto desde pequena, que é o doce afinar das cordas, uma a uma, buscando a harmonia final.
Dei o braço a torcer, claro. Comentei algo como: dá pra achar de tudo aí hoje em dia, ao que meu pai concordou e, logo após conseguir que minha cantoria soasse menos desafinada por conta da afinação do acompanhamento, passou a procurar músicas das décadas passadas. "Como eram bonitas! As de hoje não dá nem pra aguentar".
Foi então que me lembrei da minha busca, no ano passado, por algo como "pontos de tricô": realmente encontrei diversas aulas, que não substituiriam um professor ao vivo (como minha tia, que me ensinou de modo muito mais preciso as laçadas e os nós na lã), mas servem pra quem tem mais disposição e persistência para rever o mesmo vídeo on and on do que tempo ou contatos sociais para tomar umas aulinhas.

Pensando assim, vale muito a pena! Em uma busca rápida, encontrei vídeos que ensinam como "lavar os cabelos", "depilar perna", "tirar respingos de tinta da pintura do carro", "dançar macarena", "desenhar sketches", "tirar fotos", "fazer sorvete" e por aí vai. E, claro, também é possível disponibilizar seu próprio vídeo e ensinar à humanidade algo que seu talento domina, ou simplesmente que você ache importante que os outros vejam (ou não). Eu mesma - lembrei agora! -, tenho uns três vídeos disponibilizados, inclusive com a tal da cantoria...

Fato é que, em tempos de youtube, dá pra se ver de tudo: se o céu é o limite, esse céu é a imaginação de cada um. E ela pode nos levar a caminhos tão intensos quanto um filme de Tim Burton. É isso que tanto atrai quanto apavora quando sabemos que temos tanto poder ao alcance dos olhos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

My Blueberry Nights


Hoje assisti a esse filme de Won-Kar-Wai de 2006, traduzido por "Um beijo roubado", com a Norah Jones e o Jude Law. Ele fala de uma mulher que, perdida por ter sido trocada por outra (não achei termo melhor), começa a conversar com o dono de um café que já viveu algumas coisas, vendo-as então de outro ponto de vista ou, pelo menos, deixando-as mais leves pra ela, recém-ferida. Ela decide viajar para se encontrar, mantendo contato com ele por postais e cartas, enquanto ele a procura incessantemente por telefonemas e também postais, sempre sem sair do lugar - caso ela volte.
Não sei direito o que falar sobre o filme sem acabar contando o final ou sendo repetitiva (falando quase a mesma coisa do que o "Caramelo" na antepenúltima postagem). Mas vale a pena assistir, principalmente por quatro motivos: 1) a estreia na atuação de Norah Jones; 2) a atuação de David Strathairn; 3) a trilha sonora e 4) o tal do 'beijo roubado', maravilhoso - e não só porque envolve o ainda mais maravilhoso Jude Law: sim porque ele tastes tão delicioso quanto uma blueberry pie.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caramelo


São dez quase em ponto, e eu acabei de voltar do cinema. Assisti ao “Caramelo”, um filme franco-libanês que fala da vida de mulheres de diferentes idades, porém do mesmo bairro, unidas pela amizade e pela busca pelo amor – seja ele amor por um homem, por outra mulher, pela família, uma pela outra ou por si mesmas. Pra mim, o filme também fala de escolhas que fazemos e as conseqüências delas de modo sério, visto que, em “Caramelo”, elas nos acompanham por anos e, se não forem substituídas (o que parece ficar cada vez mais difícil), permanecem por toda a nossa vida e se tornam nossa vida.

O filme traz personagens lindas e uma delicadeza que surge dos olhares, da fotografia, das canções e das texturas (especialmente das rendas e do caramelo do título, que é doce e dor ao mesmo tempo, pois é o material da cera de depilar feita por uma das personagens em seu salão de beleza). Enfim a beleza (que não à toa é uma palavra feminina) está em toda parte da história.
Engraçado que, enquanto as personagens principais trazem uma certa tristeza que as leva a buscar o outro, as mulheres que, em tese, encontraram alguém com quem viver por todos os dias (ou “por” quem viver “com” todos os dias...) são desenganadas. Disso tudo, portanto, resta o desengano das principais, que buscam no outro uma falta a ser preenchida e que na verdade não existe.

Jean-Jacques Lacan, psicanalista francês, dizia que a mulher não existe. Não existe à medida que seus desejos se voltam para a satisfação de outrem, pois assim se constitui: a mulher tem uma falta primordial que nunca é preenchida. Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, torna-se uma. A mulher é uma construção e, portanto, uma busca eterna. Se ela não existe, também nunca termina.

E é por tudo isso que fui ao cinema sozinha, pela primeira vez.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O Diabo Veste Prada


Hoje assisti de novo ao filme "O Diabo veste Prada" (Fox, 2006). Não tenho muita paciência para rever filmes, talvez porque freqüentemente me surja a paranóia de estar desperdiçando algumas horas da minha vida numa reprise enquanto poderia estar vivendo algo inédito. Esta lógica, apesar de lógica, também é um pouco torta -porque a gente pode muito bem encontrar no filme detalhes e idéias que não tínhamos captado antes simplesmente porque não podíamos ou ainda não estávamos prontos para ver sob a nova ótica em questão e, assim, viver algo novo e que valha a pena.

Desta vez, assisti ao filme de olho em algumas coisas, não necessariamente em ordem: 1) as roupas maravilhosas, 2) a atuação da Anne Hathaway, com sutis, mas valiosos, trejeitos que compunham a personagem Andrea, e 3) quão 'normal' é encontrarmos Mirandas em nosso caminho. E é isso que faz com que, inevitavelmente, 99% de nós nos identifiquemos muito com a mocinha espevitada. Somos rodeados por satãs bem-vestidos (ou seja, em pele de cordeiro, se é que o ovino está in em casacos neste inverno europeu) que nos causam, inicialmente, medo, repulsa e, lá no âmago, admiração. É tentador. A Cá estava vendo o filme comigo e comentou: "Quem não ficaria deslumbrado com tudo isso?"; é verdade (vide meu número 1 ali no começo do parágrafo). A personagem da Anne despiroca, dá um bolo (tanto no sentido conotativo quanto no denotativo) no aniversário do namorado charmosinho, não resiste ao loiro-de-sobrancelhas-estranhas-porém-jornalista-que-ela-admira, dá um pelé na colega de trabalho e vai pra Paris. Ela passa o filme se justificando e negando o quanto estava sendo transformada. Já que estava no inferno, passou a abraçar o capeta. Mas, no fim do filme (spoiler!), por ironia do destino (ou não), foi uma frase da própria diabona que a faz abrir os olhos, e ela percebe que ainda dá pra reverter a situação. E aí é recompensada e consegue o emprego que tanto queria, de jornalista no New York Mirror.

Será que ela precisaria passar por tantas humilhações da toda-poderosa da revista Runway, virar o pé com aqueles saltos divinos, conseguir o manuscrito do Harry Potter 7 e nem poder dar uma folheadinha etc., pra conseguir ter sua lição aprendida e ganhar o prêmio final? Eu aposto que sim. E vocês?