Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O pedaço da vida que são as férias

(menino ouvindo áudio sobre obra de Miró, no Museum of Modern Arts, NYC, em ago/13)

Férias são sempre boas, mas não são boas sempre - para uns, ela traz um certo sentimento de vazio pelo ócio excessivo, para outros traz uns quilos a mais. Já ouvi gente que caiu na cama, doente, no primeiro dia sem ter que bater o ponto (o que não é à toa nem coincidência, na maioria das vezes, vamos combinar!). E, claro, tem férias que só são ruins no momento em que acabam.

Sou daquelas pessoas que fazem de tudo para aproveitar bem as férias, seja viajando (o que me dá uma certa preguiça de resolver sozinha, mas para isso conto com uma família enorme e em especial uma prima-irmã sempre disposta a viajar e resolver todos os procedimentos burocráticos com mais facilidade do que preparar comida congelada - no caso dela, quero dizer isso literalmente!), seja aproveitando os dias em casa, fora da loucura do trabalho (o que, digamos, no meu caso também é literal, sem conotações pejorativas do termo "loucura"). 

Este ano, passei metade das férias em viagem. Chego, assim, a uma outra modalidade de "cons" deste período de descanso: o o stress natural das viagens de férias. Nem que esse stress seja vivido naturalmente e com muito bom humor, é inegável que ele existe. Não é só pelo hotel que se mostrou uma decepção, ou pela simpatia de guerra dos taxistas, ou pela discordâncias entre as partes sobre qual programa fazer; há o stress do corpo pelas mudanças na rotina, o fuso horário, o jet lag.

Mas "sair de cena" é importante. Quando há a possibilidade de viajar, é melhor ainda, pois você poderá trazer uma nova experiência cultural -  e experiência nunca é desperdício. Se não dá para viajar, também pode ser proveitoso imersar-se em uma experiência particular que seja de seu agrado, como arriscar-se a uma nova modalidade de lazer, o que pode ser em níveis distintos de novidade. Por exemplo, gosta de filmes e quer assistir a filmes novos. Que tal conhecer um gênero que não costuma ser sua primeira escolha - um documentário, ou um filme de terror? Em outro nível de novidade, vale até rever um filme bacana e prestar atenção a algo que nunca foi seu foco de atenção, como os efeitos sonoros, ou o figurino.

Férias não representam um hiato da vida, e sim do aspecto "produtivo" da vida, seja do trabalho, seja dos estudos. Esperar as férias não é esperar que as regras da vida, que sempre impera, às vezes frustra e nunca é perfeita, sejam revogadas neste intervalo. Assim, não será necessariamente um mar de rosas, a não ser que suas férias sejam pequenas o suficiente para caber um mar de rosas. 

Mas se a alma for maior ou se assim o quiser, vale a pena ir além do convencional - mergulhe!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A separação da dor

[The Sleeping Girl. Tamara de Lempicka. Óleo sobre tela, 1930. Stephen Myers -Worth Avenue fine Arts, EUA]

Quantas vezes nos acontece de passar o dia com uma dor de cabeça forte, intensa, latejante, para enfim percebermos que, na verdade, a dor é em um dente, lá num cantinho da boca, e nada mais que isso? É o fenômeno da generalização da dor. Há situações em que é impossível para nosso cérebro detectar o foco exato de dor, seja ela por um corte profundo em uma situação de intenso estresse, em que a necessidade de fugir dali é adaptativa e, portanto, é melhor que não se tenha consciência da dor. Ou, simplesmente, porque a região afetada possui terminações nervosas que contribuem para esta dificuldade (como a dor de dente, por exemplo).

Emocionalmente falando, há outras maneiras de sentir dor de maneira generalizada. Como nas grandes dores do corpo, aqui não entra o tempo lógico; vive-se a dor sem olhar para as horas e o calendário. A vivência da dor pode ser pulsante, talvez repentina, daquelas que "retorcem", pode ficar crônica. Por outro lado, as dores desta natureza não passam com analgesia - às vezes é preciso, sim, anestesiá-las com medicação; porém, a resolução  envolve algo mais similar à fisioterapia: é aos poucos e no sucessivo contato com a própria dor que deixamos de senti-la.

Mais do que superá-la, é através do entendimento da dor (e isso envolve o contato com ela - nem que seja um contato "cirúrgico", cuidadoso, acompanhado, em zona segura) que podemos identificar de onde ela vem. Pois, da mesma maneira que a dor de dente, o espraiamento de uma dor emocional prejudica o discernimento do ponto exato da dor. Sentimos apenas a dor, e que dor!, precisa mais do que isso?? 

Sim. Para que não culpemos vítimas, não sejamos injustos com as outras pessoas e com nossos sentimentos (entrando assim na cadeia multiplicativa da dor), precisamos de uma leve resignação. Aceitar que a dor, sim, está lá; e nos concentrarmos para extraí-la sem maiores efeitos colaterais, tendo a grata surpresa de conferir seu real (e menor) tamanho.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A vida e a arte

Deve ter sido o nome mais óbvio das minhas postagens. Mas o que precisa ser destacado aqui não é o meu título, nem meu texto. É esse vídeo (o primeiro que coloco aqui), e que me tocou muito. Porque muito falamos sobre o adeus, a despedida, a perda - às vezes, nos atrevemos a falar do luto. Porém, raramente falamos sobre a vida além da separação. E, sim, ela existe. Não somos todos poetas ou artistas, nem podemos nos dar ao luxo de um ritual de adeus que envolva a Muralha da China. Mas, ainda assim, a vida pode nos brindar com surpresas. Para chegar lá, há um duro caminho a percorrer, e, durante pelo menos uma parte, devemos fazê-lo sós.

“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem ela saber, e foi assim.” Maeve Jinkings (Traduzido por Rodrigo Robleño)


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Mulher a(o)-mar


Acho que já disse isso: sim, eu dou uma espiadinha no Big Brother Brasil. Desde o primeiro, sei até o nome do primeiro eliminado do BBB1, e provavelmente lembro boa parte dos nomes dos que já passaram naquela casa. Lembro até que a Marisa Orth apresentava junto com o Pedro Bial no começo, mas acho que não emplacou, porque ela logo foi eliminada (ou pediu pra sair). Eu o faço por prazer e acho que, por mais que nem sempre goste, tenho que experimentar as coisas do meu tempo, pois senão, quando velha, serei apenas nostalgia de um tempo que não vivi.
Sou daquelas que todo ano promete não assistir ao próximo, mas vai vendo "só" a vinheta pra ver se é a mesma, aí o primeiro líder, logo vem o paredão. Este ano foi igual. Mas a diferença é que a Ariadna e sua transsexualidade foram o golpe de mestre, a novidade que chamou a atenção de todos. Como se comportaria um transsexual? E se um dos homens 'pegasse' ele sem saber? Todos quiseram assistir.
A surpresa é que Ariadna foi mais discreta do que se imaginaria (disso como telespectadora da edição da Globo apenas, e não do pay-per-view, porque afinal eu também trabalho e leio Milan Kundera). Ela falou pouco de si, apesar de não mentir em nenhum momento - apenas omitir. Mas a omissão já foi absolvida há tempos da cadeira de réus das mentiras. Gostava de fofoca? Sim, como toda mulher e como todo homem. Sentiu-se insegura frente a conselhos dos amigos gays? Sim, e não dá mesmo pra saber as reais intenções daqueles conselhos. Dançava seminua até o chão e agarrava os outros? Claro, assim se camuflava ainda mais.
Outra surpresa veio depois. A surpresa de um primeiro paredão em que 100% eram negros (ou mulatos, enfim, não-brancos), mas ninguém deu atenção pra isso, e 66% eram GLBTS, a corda estourou no lado de sempre - o mais fraco. Porém, este "mais fraco" era novidade no jogo.
Encarar um transsexual não é fácil: há a curiosidade, a negação, a repulsa. Encará-lo é se haver com a própria bissexualidade original, guardada a sete chaves há muito tempo. Porém, mais do que isso, a escolha do publico mostrou o preconceito enrustido na falsa defesa da verdade "exposta a qualquer preço", da assunção de si mesmo. Quais dessas pessoas que votaram alegando estes motivos assumiria algo tão íntimo como suas escolhas sexuais, a relação com o corpo e o gênero, para dezesseis desconhecidos assim, de cara? Desconhecidos com quem se teria de conviver e dos quais dependeria até o fim do jogo. O que a eliminou foi o preconceito, e não o fato que ela tinha um segredo. Afinal, quem não tem? Quem não tem segredos não é interessante.
Alegar seus votos por meio de discursos socialmente aceitos, e valorizados, torna muito mais fácil achar um pretexto para responsabilizar Ariadna pela própria saída do programa. Ela não se mostrou como é realmente? Ela foi falsa com os outros? Mas sexualidade não é sinônimo de identidade. Eu, pelo menos, sou mais que isso.
E, na pergunta final do apresentador, a respeito do próximo sonho a buscar, ela foi a única, das eliminações de BBB´s que eu vi (e olhem que eu vi a grande maioria!), a responder de modo escancaradamente honesto e verdadeiro: sorrindo com jeito de menina tímida, falou que o sonho maior é ter de volta o amor de sua vida; é ser amada. Não respondeu posar nua nem virar atriz, sonhos rasos de quem não consegue ir mais fundo em si mesmo, incapaz, portanto, de encontrar a própria identidade. Essa resposta, para mim, é muito mais a tal da verdade verdadeira.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ter resposta pra tudo


Sou daquelas pessoas que gostam de buscar respostas, entender fatos, ou, ao menos, criar hipóteses (aliás, às vezes acho que nossa vida inteira é uma grande hipótese). E, assim como a maioria de nós, caçadores de respostas perdidas, as soluções mágicas muitas vezes podem ser um atrativo.
E, quanto a isto, não me refiro apenas aos videntes e às cartomantes, aqueles cuja função na sociedade é justamente dar um alento para os que buscam insaciavelmente um controle ilusório sobre suas vidas. Além desse desejo, claro, tem que haver um certo prazer masoquista, porque saber seu próprio futuro nunca é garantia um de mar de rosas.
Mas falo aqui também de outros métodos para solucionar estes enigmas. Assim como ir a um astrólogo, fazer um exame genético pode identificar se temos tendência ou não a desenvolver um tipo de doença: então, em que diferem ambas as intenções?
Pensando sob este prisma, ciência e "achismo" se juntam em uma coisa só, muito mais existencialista do que eu mesma poderia supor ao escrever estas linhas: no fundo, todos queremos entender, afinal, que raios fazemos aqui, qual a nossa missão, ou, pelo menos, quem poderemos responsabilizar por nossos dramas e nossas burradas.
Porém, há aqueles que, vida leva, vida traz, acabam por pensar que findaram suas buscas, e que neles reside a verdade infinita, as explicações inteiramente plausíveis. A estas pessoas, muitas vezes dedicamos nossa admiração e nosso respeito, sem parar para ponderar se toda aquela maravilha pode mesmo ser verdade. Aliás, vemos-as como nossas verdades encarnadas.
Por quê isto acontece? Talvez por conta do grau de atração que exercem estas pessoas, um misto de admiração e inveja, conforto e medo, mas nunca indiferença; talvez, como já disse, pelo desejo profundo de controlar o que escapa, mesmo que isto envolva sofrimento; vários motivos a considerar (hipóteses). O que é certo é que nem todos poderão um dia atingir este patamar de dita sabedoria; ele é reservado para alguns, que por nós (e sobre nós) pagam o preço de não mais contar com o acaso, a surpresa, o desvelar de um segredo. Para eles, tudo fica banal, lógico, inevitável. Custa caro alcançar o final da meta que tanto almejamos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A única coisa a falar agora


(Fotos: UOL)

Há somente uma coisa a se falar neste momento: como ajudar o Haiti.


Por mais que me envergonhe de fazer parte de um número tão grande (=massa), sou uma das pessoas que nunca antes havia parado para pensar seriamente sobre o país e as seguidas sofreguidões que viveu desde seu início - como uma criança que lutou para nascer, foi criada em um ambiente desfavorável e, por tudo isso e mais um pouco, tem que enfrentar muitos percalços rumo ao seu desenvolvimento.


Mas agora não é hora para criar tratados e teorias sobre os por quês de tanta tragédia: cada um de nós, pensadores, terá seu ponto de vista limitado para contribuir - antropólogos, sociólogos, historicistas, geólogos, psicólogos, filósofos, biólogos. A hora é de pôr as mãos na massa. E fazer a diferença, mesmo que com mãos invisíveis.


Achei alguns endereços para que possamos enviar ajuda. Não quero me sentir tão impotente frente a tudo o que está a meus olhos.
O Brasil enche de orgulho quando ajudamos tanto: está atrás apenas dos EUA em quantidade financeira de ajuda enviada por um país. E, mais do que isso, enviou equipes de resgate, equipamentos médicos e mantimentos. Vamos manter essa conquista, que é maior do que sediar copas e olimpíadas (na minha opinião).


Embaixada do Haiti no Brasil
Banco do Brasil
Agência 1606-3
Conta corrente 91.000-7
CNPJ 04170237/0001-71

Cruz Vermelha
HSBC
Agência 1276
Conta corrente 14526-84
CNPJ é 04359688/0001-51

Viva Rio
Banco do Brasil
Agência 1769-8
Conta corrente 5113-6
CNPJ 00343941/0001-28

Care Internacional Brasil
Banco Real-Santander
Agência 0373
Conta corrente 5756365-0
CNPJ 04180646/0001-59

Pastoral da Criança
HSBC
Agência 0058
Conta Corrente 12.345-53
CNPJ 00.975.471/0001-15

Caixa Econômica Federal*
Agência 0647
Conta corrente 3.600-1
CNPJ 00.360.305
* As doações da Caixa serão encaminhadas à Coordenação de Assistência Humanitária (Ocha, na sigla em inglês) pelo Programa Mundial de Alimentação (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Escritório das Nações Unidas.

Médicos Sem Fronteiras
Banco Bradesco
Agência 3060-0
Conta Corrente 111036-5

domingo, 29 de novembro de 2009

Entubados (ou aguardando Alice de Tim Burton)


Em um dos (atualmente) raros momentos de "curta-seu-hobby", estava eu tocando violão, quando meu pai decidiu afiná-lo. Eis que vai ao computador, entra na internet, digita "youtube.com" e coloca na busca: "afinar violão".
Eu, que pareço mais velha que meu pai (digo isso não por achá-lo velho, mas sim pela contradição da frase), acho que não vai encontrar nada, e comento que os vídeos deveriam apenas mostrar propagandas de afinadores portáteis, ou algo que o valha. Eis que, do quarto de passar, ouço uma voz masculina explicando qual casa dedilhar para afinar a primeira corda, e então um som: dooong. E assim vai, mostrando passo-a-passo o processo que escuto desde pequena, que é o doce afinar das cordas, uma a uma, buscando a harmonia final.
Dei o braço a torcer, claro. Comentei algo como: dá pra achar de tudo aí hoje em dia, ao que meu pai concordou e, logo após conseguir que minha cantoria soasse menos desafinada por conta da afinação do acompanhamento, passou a procurar músicas das décadas passadas. "Como eram bonitas! As de hoje não dá nem pra aguentar".
Foi então que me lembrei da minha busca, no ano passado, por algo como "pontos de tricô": realmente encontrei diversas aulas, que não substituiriam um professor ao vivo (como minha tia, que me ensinou de modo muito mais preciso as laçadas e os nós na lã), mas servem pra quem tem mais disposição e persistência para rever o mesmo vídeo on and on do que tempo ou contatos sociais para tomar umas aulinhas.

Pensando assim, vale muito a pena! Em uma busca rápida, encontrei vídeos que ensinam como "lavar os cabelos", "depilar perna", "tirar respingos de tinta da pintura do carro", "dançar macarena", "desenhar sketches", "tirar fotos", "fazer sorvete" e por aí vai. E, claro, também é possível disponibilizar seu próprio vídeo e ensinar à humanidade algo que seu talento domina, ou simplesmente que você ache importante que os outros vejam (ou não). Eu mesma - lembrei agora! -, tenho uns três vídeos disponibilizados, inclusive com a tal da cantoria...

Fato é que, em tempos de youtube, dá pra se ver de tudo: se o céu é o limite, esse céu é a imaginação de cada um. E ela pode nos levar a caminhos tão intensos quanto um filme de Tim Burton. É isso que tanto atrai quanto apavora quando sabemos que temos tanto poder ao alcance dos olhos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Feriado


Hoje é feriado. Geralmente, o que perguntamos na véspera de cada um é: "O que fazer no feriado?", mas dificilmente nos lembramos primeiro das obrigações de cada data que se aproxima; já planejamos direto nossos prazeres, a viagem pra praia, o que levar ao sítio, aqueles filmes da Mostra, etc.

Hoje é dia de Finados. Nunca vi nenhuma pesquisa sobre o tema, mas acredito que, a cada ano, menos pessoas vão primeiro aos cemitérios e rezam uma missa para, somente depois, descer a serra. Por que isso acontece?

As respostas devem ser múltiplas. Desde as desculpas - falta de tempo; o trânsito que leva pra chegar aonde queremos já ocupa metade do lazer; stress; morar longe; ser fora de mão; ser fora de moda. As outras respostas, que esbarram mais em questões sócio-culturais, sugerem o abandono de hábitos, costumes, rituais, antes tão necessários.

Os rituais de passagem, como os velórios, as rezas, começaram a existir pela dificuldade (assim entendem os antropólogos) de lidar com a morte, inerentes ao homem - tanto a morte quanto a dificuldade. Assim, fazer oferendas, dedicar um lugar especial ao corpo, celebrar são formas de tornar a morte mais "palpável", mais "significável" - mais "controlável", no fim das contas. Fazer rituais, portanto, seria ter um mínimo de rédeas em algo que tanto nos assusta.

E será que, hoje em dia, realmente não precisamos mais deles? Será que conseguimos uma forma superior de lidar com o inevitável, elaboramos a coisa de um tal jeito que já entendemos o ininteligível? Ou será que simplesmente nos deixamos levar por outros interesses menos nobres e mais imediatistas, deixando de lado obrigações que nossos antepassados, há tanto tempo, sentiram necessidade de cumprir?

Para as crianças de hoje, que desde cedo entram em contato com cenas violentas de filmes de terror e de noticiários da vida real, não acredito que seria menos produtivo ir ao cemitério, com sua família, visitar os que já se foram. Saber um pouco, quem sabe, da história dos que estiveram aqui antes dela, e que, por isso, ajudaram a tornar o mundo do jeito que lhe foi apresentado ao nascer. Ou, ao menos, se familiarizar com os sons dos cantos nas capelas, o cheiro dos incensos, o silêncio dos túmulos. E, então, com as velas acesas, juntas as palmas das mãos e agradecer pela proteção e pelas bênçãos, e desejar que estejam em plena paz e serenidade.

sábado, 31 de outubro de 2009

Preenchendo vazios

A vida é permeada de encontros. No meio deles, em frestas multicor de flashes sobrepostos, há espaço para a anti-matéria da fortuna: os desencontros.
Desencontros são colisões, fenômenos de encontro e afastamento pareados em velocidade, igualmente velozes.
Mas, neste tráfego intenso, também residem ilhas de vácuo, vazios a se preencher. São os reencontros.
Eu também estava com saudades. Foi bom te encontrar. Mas agora preciso colidir novamente, até a próxima (ilha)!

domingo, 13 de setembro de 2009

Arquivos Corrompidos




Domingo é meu dia de ler revistas, jornais e atualizar meus blogs. Hoje pensei em escrever um pouco sobre a polêmica do Nelsinho Piquet (estranho chamá-lo de "Nelsinho" sendo que eu nem fã sou de corridas, para certa tristeza do meu pai). Eu ia dizer que é difícil fazer um julgamento sobre o fato de ele ter "denunciado" sua negociação com Briatore justamente e tão-somente depois de ver que a tal da negociação não lhe trouxe exatamente o que ele queria - ou seja, a renovação do contrato. Eu também ia dizer que, para os pilotos que teceram comentários sobre o ocorrido, como o Rubens (não preciso chamar de "Rubinho") Barrichello, que disse que aceitar esse tipo de acordo é antiesportivo e merece punição, só resta questionar o que é então acatar, ainda que forçosamente, ordens de deixar o companheiro vencer a corrida - e se o oposto disso seria, no mínimo, aceitar que alguns têm maior capacidade para vencer mais vezes do que outros. Aliás, ele ganhou hoje, que bom!




Mas resolvi também falar sobre a coluna do Zeca Baleiro ("Rede idiota"), na Istoé, que li corridamente (eufemismo para dizer que só passei os olhos, não li como deveria ler). Ele diz que vislumbra um futuro internético, com avatares cheios de opinião sobre todos os fatos, mas nunca rostos abertos, públicos, que assumam suas ideias. Diz também que ele não tem twitter, pois não é novela pra que o sigam. E fala da origem não muito bela e digna da internet, antes chamada Arpanet, na época da Guerra Fria.

Gosto de pensar as coisas numa perspectiva histórica. Compreender a História (por mais que nunca tivesse sido minha matéria favorita) nos ajuda a pensar no que ocorre agora. Isso tanto como indivíduos quanto como coletividade. Faz sentido demais pra negar.

Então, pensar na internet como um veículo ambíguo, que inicialmente serviu como arma de guerra e espionagem - e, portanto, atendendo a apenas um lado da luta - para depois tornar-se símbolo da globalização e da democracia, um lugar ao sol para todos e a disponibilização for free de produtos, marcas, corpos e ideias, pode ser uma nova forma de compreensão. Continuamos, assim como os espiões e agentes secretos de décadas atrás, passando através da "rede idiota" nossos segredos anonimamente, com a diferença de que, desta vez, os sussurros se dirigem, ao mesmo tempo, a todos e a ninguém. E, pensando assim, Nelsinho Piquet vai contra a maré das denúncias anônimas, expondo-se e colocando em risco uma paixão e uma profissão em prol da defesa de seus direitos. Que direitos são esses é outra questão e fica pra outra hora. Ou pra outro blogueiro anônimo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Por quê eu gosto de Los Hermanos (10 motivos)




(capa do CD "Ventura")

Eu sempre tento explicar por quê eu gosto das coisas, sendo que não há motivos pra explicar as nossas preferências (ou há? acho que sim, mas eu sou teimosa, então vamos partir do pressuposto de que não). Já tentei aqui explicar, por exemplo, por quê gosto da série "Crepúsculo" (que, aliás, eu finalmente terminei de ler: fico devendo uma postagem a respeito). Enfim. Aqui eu tento falar de tudo o que gosto -e que tenho certeza de que não vou deixar de gostar depois que transcrever.
Eu gosto de Los Hermanos. Aquela banda, sabe? A da Anna Julia. A que muita gente olha as notícias, vê a comoção dos fãs e pensa: affe, esses roots/emo/indies deviam procurar o que fazer. A que entrou em "pausa por tempo indeterminado" há pouco mais de dois anos. Sinceramente, essa parte também me cansa um pouco. A da Anna Julia, a dos fãs chatos, a da espera incessante (essa me cansa menos, mas poxa, ninguém fica esperando que os Beatles voltem - aliás, eu também já fiz uma postagem polêmica, comparando as duas bandas, hehehe).
Vamos ao que interessa. Eu gosto de Los Hermanos porque:
1) da primeira vez que ouvi, a primeiríssima mesmo, não gostei. Porque eles ocupavam lugar no Disk MTV, que eu assistia por causa dos Backstreet Boys ou das Spice Girls. Mas aquela "Anna Julia não saía da cabeça. Ah, eu também não gostava muito da Mariana Ximenes. Mas eu gosto de mudar de ideia e mudei (sobre a banda, não tanto a Mariana Ximenes).
2) eu achava bonita a "Primavera" (Primavera se foi, e com ela meu amor/ Quem me dera poder consertar tudo o que fiz), mas era uma época que eu torcia o nariz pra músicas nacionais. No fundo, eu curtia.
3) da segunda vez que ouvi - não exatamente a segunda, mas depois de um bom intervalo de tempo -, foi porque meu ex-namorado e meu primo insistiram. Isso faz uns quatro anos (Cristo, nunca tinha parado pra contar!). Já disse que sou teimosa, então ignorei os comentários por mais um bocado de tempo. Até que, em tempos de Kazaa, Limewire etc., baixei "O vento".
4) quando ouvi "O vento", foi uma estranheza. Uma sensação de nostalgia, que hoje em dia assumo que está impressa em minha memória autobiográfica como desencadeador de prazer. Estimulações nervosas, atenção concentrada no som, novas conexões sinápticas e a livre associação com imagens bonitas. Na hora, baixei várias outras.
5) depois da primeira, foram "Primeiro andar", "Conversa de botas batidas", "Samba a dois", "Último romance", "O velho e o moço", "Sentimental"... Me interessava pelo título, prestava atenção nas letras. O ritmo me prendia, a harmonia dos instrumentos, a delicadeza da voz do Camelo e a boemia ultrasexappealaosmeusouvidos da voz do Amarante - timbres que, aliás, muita gente confude, mas eu me orgulho de não confundir ever.
6) as letras casam com o que sinto, o que penso, além de terem trazido novas visões. de paz e de estranheza. Tem uma prima (a mesma que tem medo da menina do blog!) que diz que as músicas deles lhe dão dor de barriga. Acho que é pela estranheza. Eu sempre gostei de cólicas (hoje não gosto tanto) e de dores musculares. Eu gosto do que é estranho - o que se contradiz à minha teimosia, que nada mais é do que a intolerância frente ao que não é comum, que é "estrangeiro", "strange", "estranho". Vai ver, também sou estranha.
7) tenho lembranças afetivas quando ouço Los Hermanos. Algumas bem ruins, o que me fizeram sacrificar uma ou duas músicas que nunca mais ouvi. Mas a maioria boas, que não são realmente nomeadas ou claramente explicadas. Árvores, chinelo, verão, paralelepípedo, mãos dadas and so on... Uma cadeia de significantes, com todos os seus hiatos.
8) os shows são maravilhosos. São homens exalando amor (isso foi hippie demais, realmente. Sorry. Mas os shows são inexplicáveis, tem que ir pra ver. Fui em três, incluindo um no Pão de Açúcar e um de despedida, na Fundição Progresso).
9) por começar a gostar deles, comecei a me interessar mais por música brasileira. Um amor atrai o outro. Marisa Monte, Mombojó, Adriana Calcanhoto, Roberta Sá, Caetano Veloso, Chico Buarque, Céu, Roberto Carlos...
10) me faz chorar - e é feito pra rir (final da música "Cher Antoine").

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Do Amor I




Muitas vezes me pego pensando o que é o amor. Talvez porque essa palavra estampe mais da metade dos títulos de filmes românticos, surja em pelo menos 99% das músicas sertanejas, tenha mil e uma conotações e usos possíveis que, além de tudo, são muito bem aproveitados pela indústria do consumo. O amor vende.

Um tempinho atrás, descobri que uma amiga fez um blog que falava de amor. Mas ela fez uma ou duas postagens, deixando-o pra trás junto com um rompimento amoroso. Não é fácil falar de amor.

Mais fácil mesmo parece ser pensar sobre ele. Teorizar sobre algo que nem sequer conseguimos bem definir. Aos poucos, vou me deparando com ideias a respeito: de Stendhal a Comte-Sponville, agora vejo uma no meu livro sobre desenvolvimento humano, comprado no meio da faculdade, e que resolvi olhar com mais atenção só agora.

R.J. Sternberg, em 1985, criou a "Teoria Triangular do Amor". Por mais que, de cara, pareça algo favorável à poligamia, não é bem isso o que o autor (ou autora, não sei) defende; a teoria fala, na verdade, que o amor possui padrões, e que eles sempre dependem de três elementos. Os três são: a intimidade, a paixão e o comprometimento.

E, assim, Sternberg fala do não-amor (quando não há nenhum dos três, e que abarca a maioria dos relacionamentos interpessoais), da afeição (só há intimidade), a paixão louca (só há paixão), o amor vazio (só há comprometimento). Também há o amor romântico (paixão e intimidade, porém sem comprometimento), o amor companheiro (intimidade e compromentimento, sem paixão) e amor ilusório (há paixão e comprometimento, mas não intimidade). E, claro, o amor consumado (paixão+intimidade+comprometimento, que é, segundo Sternberg, mais fácil alcançar do que manter).

A princípio, pensei ser muito reconfortante olhar assim, categorizadas, as formas de amar e se relacionar - e que, imagino eu, só podem ser definidas depois de algum tempo. No entanto, logo comecei a ficar um pouco confusa: como podemos dizer que amamos um amor de tipo "vazio"? Será que o amor só por comprometimento, sem intimidade nem paixão, pode ser chamado de amor? A mesma coisa para o amor ilusório, e assim vai. Talvez o amor companheiro e o amor romântico sejam mais aceitos. Porém, olhando-os em categorias, vemos que eles ainda são capengas: nenhum chega aos (tri)pés do amor consumado. Hoje, com tantas pessoas tentando (co)existir, fica difícil ser único; por isso, nos especializamos cada vez mais em uma coisa só. O amor pode ser especializado?

E aí, será que é amor? Será que amamos? Não sei... Talvez aquela propaganda de perfume possa me responder, assim que eu comprar um frasco, irresistível e deliciosamente desenhado. Mas aí já não sei se quero saber; talvez esse amor engarrafado não faça o meu tipo. E nem aquele outro.

Fico sem saber.

domingo, 26 de julho de 2009

Sobre esta menina do blog

Minha prima tem medo dela, mas eu gosto demais desta menina do blog. Ela está de costas pra nós, mas de frente para o caminho que quer trilhar. Olha para onde pisa, mas sabe de cor as coordenadas para seguir em frente, sabendo também que pode alterá-las quando achar melhor. Sempre busca se equilibrar, mas se sempre busca, é porque nunca consegue totalmente (que bom). Tem no vestido as marcas do caminho pelo qual atravessa, da cidade, da mãe, do pai. Flores e terra áspera.
Gosto de suas cores. Gosto de não sabê-la de frente, mas ao mesmo tempo poder imaginar. Sei que se parece comigo. E, por isso, faço eu parte de seu ambiente, de sua terra e suas flores. Sou eu naquele vestido e no caminho, e no andar hesistante, na cor dos cabelos. Sou eu nestas cores, quem segue a trilha porque quer, tendo certeza passo a passo de saber onde pisar.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caramelo


São dez quase em ponto, e eu acabei de voltar do cinema. Assisti ao “Caramelo”, um filme franco-libanês que fala da vida de mulheres de diferentes idades, porém do mesmo bairro, unidas pela amizade e pela busca pelo amor – seja ele amor por um homem, por outra mulher, pela família, uma pela outra ou por si mesmas. Pra mim, o filme também fala de escolhas que fazemos e as conseqüências delas de modo sério, visto que, em “Caramelo”, elas nos acompanham por anos e, se não forem substituídas (o que parece ficar cada vez mais difícil), permanecem por toda a nossa vida e se tornam nossa vida.

O filme traz personagens lindas e uma delicadeza que surge dos olhares, da fotografia, das canções e das texturas (especialmente das rendas e do caramelo do título, que é doce e dor ao mesmo tempo, pois é o material da cera de depilar feita por uma das personagens em seu salão de beleza). Enfim a beleza (que não à toa é uma palavra feminina) está em toda parte da história.
Engraçado que, enquanto as personagens principais trazem uma certa tristeza que as leva a buscar o outro, as mulheres que, em tese, encontraram alguém com quem viver por todos os dias (ou “por” quem viver “com” todos os dias...) são desenganadas. Disso tudo, portanto, resta o desengano das principais, que buscam no outro uma falta a ser preenchida e que na verdade não existe.

Jean-Jacques Lacan, psicanalista francês, dizia que a mulher não existe. Não existe à medida que seus desejos se voltam para a satisfação de outrem, pois assim se constitui: a mulher tem uma falta primordial que nunca é preenchida. Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, torna-se uma. A mulher é uma construção e, portanto, uma busca eterna. Se ela não existe, também nunca termina.

E é por tudo isso que fui ao cinema sozinha, pela primeira vez.

sábado, 27 de junho de 2009

Desatando nós

Nem sempre as coisas saem como a gente espera, prevê, imagina ou deseja.
Muitas vezes, temos a impressão de que esse fato que muda nossas expectativas é uma surpresa, que irrompe no nosso cotidiano e nos deixa à mercê do desconhecido, vagando por lugares dos quais não nos sentimos pertencentes.
No entanto, em outros momentos podemos pensar o contrário: que houveram sinais vagos, sinais difusos, sinais claros, sinais óbvios de que essas águas desembocariam inevitavelmente aonde foram tornadas, transformadas. E, então, cada um pode sentir o que melhor lhe aprouver: raiva, humilhação, culpa, clareza, contentamento, alívio. Meio que "vai da fé" de cada um.
Pode ser confortador, aconchegante fazer esse exercício, sentir que, de algum modo (i.e., por meio da reflexão, da racionalização, das explicações por vezes ilógicas aos olhos de outrem) - pra muitos e outros, o acaso se mantém sob nosso controle.
E, na mesma maré onde se espalham estes extremos ao mesmo tempo tão próximos, repousam gamas de sentimentos, que nos confudem e atormentam, trazendo à tona ora desejos de naufrágio, ora fôlego para mais braçadas.
Os passos que damos geralmente nos passam despercebidos, a não ser quando têm de ser muito largos, quase saltos. E mesmo estes podem ser tão brevemente esquecidos que nem sabemos que alguma vez os lembramos.

***

Finalizando com a frase de Catherine Millet (que estará na Flip deste ano e, infelizmente, eu não dei meus pulos pra ir) que li em entrevista para a Folha de São Paulo:
"quando você escreve sua vida, ela se torna qualquer coisa da qual você não faz mais parte."

domingo, 19 de abril de 2009

Anestesia


I want to be rich and I want lots of money

I don’t care about clever, I don’t care about funny

I want loads of clothes and fuckloads of diamonds

I heard people die while they are trying to find them

I’ll take my clothes off and it will be shameless

Cuz everyone knows that’s how you get famous

I’ll look at the sun and I’ll look in the mirror

I’m on the right track yeah I’m on to a winner



I don’t know what’s right and what’s real anymore

I don’t know how I’m meant to feel anymore

When do you think it will all become clear?

‘Cuz I’m being taken over by The Fear

Life’s about film stars and less about mothers

It’s all about fast cars cussing each other

But it doesn’t matter cause I’m packing plastic

and that’s what makes my life so fucking fantastic

(...)


Forget about guns and forget ammunition

Cause I’m killing them all on my own little mission

Now I’m not a saint but I’m not a sinner

Now everything's cool as long as I’m getting thinner (Lily Allen, The Fear)



Sim, eu comentei um tempo atrás que estava pensando muito nas músicas que surgem atualmente. Esta de cima, da Lily Allen, me chamou logo a atenção pela estranheza, tanto da sonoridade quanto do videoclipe, que é meio Alice no País das Maravilhas versão fashion 80. Depois, sabendo a letra, entendi que toda essa sensação de anestesia e de viagem lisérgica faziam sentido: a letra fala de um momento em que a pessoa tem um certo discernimento de que as coisas não andam tão bem, porém nada pode fazer a não ser nadar a favor da correnteza. Há tanto um auto-conhecimento (autoconhecimento?) que perpassa a psique coletiva, visto que fala de si através também do que se vê nos outros ao redor (heteroconhecimento?), quanto uma certa ironia, que pode ser entendida como tal ou como uma verdadeira "anestesia mental" em que não se para para (estranho!) realmente refletir sobre o fenômeno; ele apenas é descrito.


Acho que isso tem acontecido tanto com a gente! Somos pequenos mísseis, sim, atingindo uns aos outros, porém teleguiados por algo maior... Isso me assusta, assim como a vida falando mais de estrelas de cinema do que de mães. Aliás, o dia delas está chegando...


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Postagem rápida...

Faz tempo que não escrevo... Saudades! Hoje não vou falar nada de mais, foi a privação que me fez vir aqui, atraves do meu super iPhone. Só estou escrevendo para contar que estou de casa nova (homenagem a minha amiga Re Casanova, aniversariante de hoje! hahaha). Ainda estou sem banda larga, então por isso minha ausência... Mas tendo uma nova experiência (um adendo: dois carros acabaram de bater aqui perto, fui espiar da janela). Eu aprendi a gostar um pouco mais de mudanças; elas nunca foram minhas melhores amigas, mas a verdade eh que não tive muito contato com elas. Não são presenca fixa da minha vida mais de base, ou seja, de muito nova. Então precisei aprender a respeita-las nestes últimos tempos.

terça-feira, 24 de março de 2009

Single Ladies and Misses Independent


All the single ladies
Now put your hands up
Up in the club, we just broke up
I'm doing my own little thing
(...)
Ya can't be mad at me
Cuz if you liked it then you should have put a ring on it (Beyoncé, All the single ladies)


Não, eu não gosto nem um pouco dessa música da Beyoncé (aliás, muitas vezes me pergunto por que ela não assume inteiramente sua veia de compositora de baladas, como "Irreplaceable" e "If I were a boy", e não dessas músicas dançantes em ela já admitiu não serem suas preferidas e nas quais ela me dá um certo medo quando dança. Mas eu sei que essa cisma é minha, eu, que sou na verdade bem blasèe no que se refere a micaretas e qualquer tipo de agitação demasiada, pelo menos na maior parte do tempo. Mas voltemos ao "Não, eu não gosto nem um pouco dessa música da Beyoncé"). A questão é que ultimamente tenho pensado muito nas músicas atuais, mais do que de costume. Não só pensando, mas tentando compreender o por quê de elas terem sido 'fisgadas' do mundo das ideias justamente no tempo e no espaço em que se inserem, que motivações maiores estão por detrás desse suposto pseudo-acaso.


Tentando dar outro sentido talvez menos filosófico-platônico, o que quero dizer é que, sabendo que artistas são aqueles que conseguem expressar não apenas o que está dentro deles, mas também passam para o registro do concreto e sensível (i.e., que se sente, que diz respeito aos sentidos) o peso do ambiente sobre nós, então as letras das músicas são uma amostra da expressão artística do movimento do mundo. Ok, ok, talvez essa minha explicação continue tão intangível quanto a de cima. O que quero dizer, sem delongas, é que as músicas não surgem nem determinada época à toa, elas têm um sentido de ser e estar naquele momento específico -e, ainda mais do que estarem, permanecerem, como é o caso das canções imortais, que quebram as leis do tempo e do espaço, da finitude e do ciclo vital, obedecendo a um outro tipo de ordem. Sobre elas, aliás, procuro ter fé de que algumas músicas dos dias de hoje possam, mais pra frente, receber esse título -mas, infelizmente, nem sempre sou tão otimista. O que me conforta é que não estarei aqui pra confirmar ou refutar minhas esperanças.


Mas, pela segunda vez, voltando à frase "Não, eu não gosto nem um pouco dessa música da Beyoncé". Realmente não gosto, mas alguma coisa ela mostra sobre nós, habitantes de metrópoles. Comecei a pensar nisso justamente no metrô, onde me deparo, quase todo dia, com aquilo que já conhecemos: gente empurrando, xingando, passando pelo outro como se ele fosse de outra dimensão e o corpo não estivesse realmente presente ali - hologramas tipo reunião de cúpula do Star Wars, saca?


Nisso tudo, o que mais me incomoda muito são os homens: eles perderam o pouco que se considera adaptável do pensamento medieval, ou seja, o cavalheirismo. Fico achando que, se houvesse uma tragédia tipo Titanic hoje em dia, ninguém ia se lembrar de dizer "Mulheres e crianças primeiro!", há!, doce ilusão. É cada um por si mes-mo. Os barcos iam ficar lotados de trogloditas que não poderiam perpetuar a espécie entre si.



Freud, Darwin, feministas, alguém poderia me explicar por quê o cavalheirismo está com os dias contados???
PS: E ainda me vem um Ne-Yo da vida e faz uma música desse naipe:
‘Cause she work like a boss
Play like a boss
Car and the crib she ’bout to pay ‘em both off
And bills are payed on time, yeah
She made for a boss
Slowly a boss
Anything less she telling them to get lost
That’s the girl that’s on my mind

She got her own thing
That’s why I love her
Miss independent
Won’t you come and spend a little time (Ne-Yo, Miss Independent)

segunda-feira, 9 de março de 2009

O seu, o meu, o nosso

Há algum tempo (quase dois meses), li uma entrevista na revista Marie Claire (que, aliás, é minha preferida das revistas femininas) que me chamou a atenção não apenas pelo título, um pouco excêntrico, mas também pelo conteúdo que trazia o entrevistado: ele é Silvio Meira, um futurólogo -sim, sei que continua parecendo excêntrico – que pode, seguindo a lógica de seu trabalho, cujos temas abrangem desenvolvimento científico e constante atualização da tecnologia, traçar algumas previsões acerca do futuro da humanidade. É aí que, lendo o que ele diz, percebemos que não há nenhum traço de excentricidade ou esoterismo à la Paulo Coelho (por mais que até a fotografia do entrevistado sugira uma relação com o homem que geralmente usa blusas preta de manga longa): pelo contrário, são potencialidades de que não podemos, por mais que tentemos como peneira contra o sol ou, atualizando a expressão, um enorme buraco na camada de ozônio, nos esconder.
O por quê de ruminar essa entrevista desde então? Provavelmente porque não consigo deixar de pensar nos problemas do mundo, propagados cada vez mais pelos meios de comunicação mas que, besteiradas à parte, são realmente importantes. Num workshop sobre Psicologia Organizacional que vi há um ano, uma professora disse, despretensiosamente, que, assim como a bandeira dos hippies era a revolução sexual, a flâmula a ser erguida pela nossa geração é a da conscientização ambiental. Esta frase, bem, já deixei de ruminar, talvez esteja agora tentando encaixá-la em minha vida cada vez mais.

Sugiro, obviamente, a entrevista completa (feita por Milly Lacombe, com foto de Léo Caldas), na MC 214. Mas, de qualquer forma, propago aqui trechos das informações trazidas por este homem, que é futurólogo, consultor da ONU, pai de três filhos e, mais do que isso, um co-habitante de nosso planeta que é sensível o suficiente para perceber que há algo de errado e otimista o suficiente para acreditar que possamos consertar o estrago.

Marie Claire – Em um artigo publicado na revista “Wired” e assinado pelo renomado cientista americano Billy Joy, cofundador da Sun Microsystems, um dos cenários possíveis é o do futuro totalmente dominado pelas máquinas. Como isso seria possível?
Silvio Meira – Dou um exemplo. Num mundo ideal seremos servidos por máquinas inteligentes que nos levarão de um ponto a outro por capacidade própria. Mas imagina essa situação: Milly e Silvio querem ir para o hotel X e os carros se recusam a levá-los. Esse é o risco sobre o qual Joy falou no polêmico artigo “Por que o futuro não precisa da gente” (...) Nesse cenário de Joy, existe uma elite que vai dominar a máquina e controlar você. Essa elite se chama programadores (...). Dentro de 15, 20, 30 anos, se você não souber programar, estará alienado da sociedade. Será como o analfabeto hoje. (...)

MC – Ficaremos a cada dia mais escravos do sistema?
SM – Você navega na internet, ou usa o cartão de crédito ou de débito, ou usa o Sem Parar nas estradas... Tudo o que você faz começa a ficar registrado no sistema. Resultado: daqui a 10, 15 anos, o sistema terá uma pirâmide de informação a seu respeito, o que você gosta de fazer sexta à noite, onde compra comida etc. (...). Por exemplo: o sistema identifica que Silvio Meira está, por motivos diversos, dentro de nível de risco de cirrose elevado e que, se ele contrair a doença, custará muito caro à instituição. Então, o sistema determina que ele só pode tomar duas doses de whisky por noite. Eu vou a um bar, peço a terceira dose e o garçom me diz que eu não posso mais. Se o sistema registrar absolutamente tudo sobre você, sem nunca esquecer nada, eu não vou poder tomar a terceira dose.

MC – Daqui a 20 anos, como será a vida de uma mulher de classe média, casada, com filhos, que trabalha fora?
SM – (...) Não tem a empregada e a lista do supermercado básica será entregue sem a necessidade de fazer o pedido, que já estará registrado, regularmente. Os alimentos já virão semiprontos (...) A escola das crianças será em tempo integral e muito perto de casa, e ela não vai precisar levar nem buscar as crianças (...) Uma leitura rápida de você, pela digital ou pelo olho, vai dizer quantos créditos ainda tem para comprar determinado serviço no ponto de venda que você está (...) O documento irá morrer: você será seu documento. (...) Para uma reunião de trabalho, ela não precisará estar fisicamente presente. Sua presença se dará de outra forma: o virtual dela, um avatar. (...)

MC – Seremos pessoas mais isoladas?
SM – Quantas horas você perde por dia dentro do carro no trânsito indo e vindo? Três, quatro? Imagina recuperar isso? Você pode ir para o clube, visitar amigos, fazer jantares na sua casa, ver a família todos os dias. (...)

MC – E como a tecnologia pode ajudar [a garantir que haja futuro]?
SM – Diminuindo o movimento de pessoas pelo planeta em, por exemplo, viagens de negócios, idas e vindas do trabalho etc, que é um dos maiores motivos da carga de aquecimento térmico (...). Identificando-se todas as embalagens e informatizando o planeta de tal maneira que é possível ir atrás de uma empresa que produz sabonete e dizer: “Escuta, 70% de suas embalagens estão espalhadas por aí como lixo. Seu custo ambiental por essa é tanto”. Nesse caso, ou a empresa faz uma embalagem que se degenere sozinha, ou recupera as embalagens perdidas, ou treina seus funcionários e clientes para recuperá-las. O responsável pelo destino final da embalagem passa a ser quem a produz. É a era da responsabilidade (...). Olha em volta, o futuro já chegou.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Oscar e o controle


Pela primeira vez na minha vida, assisti à cerimônia do Oscar inteirinha, da atriz coadjuvante ao filme. Claro que, telespectadora ativa (e não passiva) que acabo sendo mesmo sem querer, surgiram-me algumas perguntas de cujas respostas não fui atrás, mas que quis compartilhar (já que, como diz um comercial do só segundo refrigerante mais vendido: "questione"):

* Há 81 anos (desde o começo da premiação) a ordem de apresentação dos prêmios é esta? Qual o sentido de colocar, em primeiro lugar, a categoria de atriz coadjuvante e, lá pras tantas, a de ator coadjuvante, e a de diretor antes da de ator, que vem logo antes da de filme? Confusão! Enfim... que estratégia é essa? A atriz coajuvante é tipo um teaser pro resto da premiação?

* Será que os estilistas famosos também dão (ou emprestam) vestidos para as mulheres que não são atrizes, mas que concorrem nas categorias técnicas e/ou menores (por exemplo, uma diretora de curta-metragem)?

* Será que a posição de cada estrela que assiste ao evento é milimetricamente e meticulosamente calculado (tipo: fulano não vai com a cara da cicrana, então vamos colocá-lo do outro lado, mas também não do lado do beltrano, que está com a ex do fulano)?

* Falando nisso, por que a coitada da Jennifer Aniston teve que apresentar um prêmio de frente pro casal Jolie-Pitt e, ainda por cima, acompanhada do Jack Black? Não tinha pelo menos um James Franquinho, ou um Clooneyzinho?

* Que critérios a Academia usa para escolher os filmes, tão diferentes entre si? No caso deste ano, o que fez com que Slumdog Millionaire ("Quem quer ser milionário?") ganhasse 80% dos prêmios a que concorria?

Quanto a esta última pergunta, eu vou dizer aqui uma informação meio conspiratória: minha mãe viu em algum lugar uma entrevista com a escritora de novelas Glória Perez. Ela conta que usou serviços de uma empresa que busca, no mundo todo, as tendências do futuro. Foi assim que ela descobriu que a Índia estaria em alta este ano e, daí, surgiu a novela das oito. BOM: pode ser impressão ou não, mas aquela obra de arte que estava no fundo do palco do Kodak Teathre feita por dois irmãos (não consegui entender o nome) era bem a cara dos seguidores dos Upanishads. E as duas canções do Slumdog, cantadas em seguida e dançadas pelo elenco de Bollywood, não ocuparam tanto tempo na televisão à toa. Pensando bem, não é preciso ser adivinho ou trabalhar na tal empresa x-men para, se não prever, ao menos acreditar que a Índia agora, neste momento global, com suas cores e fatos, faz todo o sentido.
(Ah, melhor mencionar: Não, o Infinito de Emy não trabalha para esta tal empresa, por mais que já tenha falado sobre a Índia em seus domínios)