Você pode ser linda; ter um cabelo perfumado; bom hálito.
Você pode ser inteligente, falar de arte e de futebol usando um mesmo argumento
essencial. Você pode ser engraçada, rir de si mesma, permitir que uma briguinha
vire motivo de piada. Você pode ser companheira, lembrar-se de perguntar como
foi o trabalho, vibrar com uma conquista, topar um programa de índio sabendo
que pode ser divertido. Você pode ter tantas qualidades, mas sempre haverá
alguém com qualidades parecidas, ou relativamente melhores. No fim, não é o
conjunto de suas qualidades que determinará o sucesso ou o fracasso do seu
relacionamento. Este, como já sabemos, é feito de dois; suas qualidades e seus
defeitos são apenas uma pequena parcela do todo dinâmico e imprevisível que é
uma relação. O que é qualidade pra um, pode não ser pra outro. Sua beleza pode
deixá-lo inseguro. Seu companheirismo pode parecer uma invasão de privacidade.
Sua insegurança pode ser a engrenagem que o faz se sentir forte e poderoso.
Não, você não fez nada de errado, você não faltou com nada, você não excedeu em
nada; e ao mesmo tempo sim, você fez tudo isso, e mais um pouco. Depende do
ponto de vista, e ele nunca é monoangular quando o que se está em jogo é uma
trama que envolve (pelo menos) dois seres com toda essa bagagem nas costas.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
domingo, 2 de setembro de 2012
Concêntrico
[Crédito da foto: Miles Aldridge, "Dreamy" para Vogue Itália, 2009. www.milesaldridge.com]
Cá me encontro, ou desencontro (de mim mesma). Muitas
tarefas me aguardam. Parte delas habitualmente exige de mim um certo esforço
para levar a cabo, considerando que são protocolares e exigem um raciocínio
concentrado constante, no qual me vejo tolhendo minha criatividade, pois ela
não cabe ali. Porém, sempre me foi prazeroso o momento do fim, mesmo dessas
tarefas protocolares, aquele parágrafo final que vem junto com o pensamento
“Ficou bom! Terminei!” – este geralmente acompanhado de uma expressão como “At
last!”, “Graças a Deus!”, ou qualquer outra referência moderna de “Parla!” ou
“Heureca!” – com tanta gente no mundo e tantas coisas já descobertas, nossos
grandes passos são menores do que os de nossos antepassados.
O problema é que ultimamente mesmo estas engatinhadas me
são raras. Coisas para fazer não faltam, e nos últimos tempos me flagro pegando
desvios para fazer tudo, menos o que prenda demais minha concentração – parto
pras atividades “mão na massa” ou, poderia dizer, “corpo em movimento”: coleta
de dados do mestrado, entrevistas, trabalhos manuais, culinária (é tão
terapêutico cortar legumes!), academia. Academia mesmo; nunca na
história desse corpo que me pertence fiz render tanto a mensalidade salgada da
academia que frequento. Em suma, tudo que eu possa fazer sem ter que deixar de
lado o alvo principal dos meus pensamentos: uma nova paixão. Um enamoramento,
como penso ser mais bonito dizer.
Paixões, todo mundo que teve já sabe, são como um agente
infeccioso que invade nosso organismo e exige que ele trabalhe a todo vapor a
fim de dar conta de suas exigências; seja por meio de uma febre literal, seja
através de outras maneiras de aliviar um pouco a tensão provocada quando seu
corpo está habitado por outro ser vivo além de você. Porque, assim como acontece
na invasão das bactérias, fungos e outros microorganismos, quando estamos
apaixonados é como se o objeto da paixão estivesse constantemente nos
habitando. E é por isso que, no meu caso, esse ser alienígena que se encontra em minhas
entranhas me impede de cumprir com (pelo menos algumas) obrigações
profissionais.
Quero esclarecer: meu hiperego não foi dar uma volta na
praia, a ponto do ego abrir as asinhas e ficar negligente com meu trabalho. É
só que minha energia, minha libido no sentido junguiano, não está tão
direcionada para esses propósitos. A verdade é que ela esteve neste setor de
investimento – a carreira –, quase que exclusivamente, durante dois anos: neste
período, nenhum corpo estranho me invadiu dessa maneira. Nesse intervalo
cronológico, nenhuma paixão foi tão grande a ponto de libertar meus olhos do
princípio de realidade, deixando-me nas mãos do prazer e distorcendo o que é
objetivo, alargando a importância de uma música ou de um gesto, reduzindo à
menor potência (existe potência zero?) a relevância das notícias do jornal. Mensalão quem?
Mensalão pra mim é o tempo não-cronológico, aquele interno, quando um par de
dias sem notícias é tão insuportável quanto um grande mês, um mensalão.
Há outros sintomas: sinto prazer, sinto raiva, sinto
euforia. Sinto uma felicidade boa, daquele tipo que o personagem de Will Smith
define tão bem em “À Procura da Felicidade”. Fico insegura e tento ignorar
minhas projeções, mas no fim do dia tenho pesadelos com tudo que era pra ficar embaixo do tapete. Tento colocar tudo em seu devido lugar, devolver-lhes as
proporções originais. Mas aí vem a infecção e transfigura tudo novamente.
Como já nos dizem os cientistas, a paixão (assim como os processos infecciosos) não
dura muito tempo, pois não somos programados para viver nessa
“inconstância constante”; não resistiríamos a tamanha bagunça, que nos tira a
ordem das coisas. É aí que a paixão beira a loucura, como já nos dizem os
poetas.
Não sei se eu preciso me curar para entender o mensalão,
já que no fim ele mesmo tem como pano de fundo outras paixões humanas. O que
sei é que escrever sobre esse enamoramento é meu remédio, me devolve, ainda que
ilusoriamente, a consciência e o controle. E, até a outra dose prescrita, volto para
minhas tarefas.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
De que é feita a beleza
Há quem diga que mulheres bonitas possuem uma maldição, que é a própria beleza. E esta, difícil de explicar, poderia ao menos ser compreendida dentro de um quê de mistério, sensualidade e volúpia - tudo isso "sin perder la ternura", que para o homem-filho é essencial. Soma-se também um componente essencial, que é a fagulha de vulnerabilidade, nem de mais, nem de menos, às vezes fisgada apenas num breve olhar.
Também se pode pensar que, para ser bonita, é preciso um mínimo de auto-conhecimento (pois só quem se conhece minimamente sabe o ângulo, o lugar, o músculo a ser contraído naquele exato momento, para ser bonita. Sim, beleza não é apenas um estado de graça, é também um estado de esforço consciente). Mas será possível ser igualmente bela sem nada saber de si? Talvez na posição mais extrema, que é aquela em se está tomada pela loucura. Nesse caso, a beleza subverte os requisitos triviais e assume outros, inexplicáveis pela lógica.
Acabei de assistir ao "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", adaptação de Beto Brant da obra literária de Marçal Aquino. Livro, aliás, que para mim tem um valor especial, dado que há (muitos) anos eu penso em ler, mas que, de fato, sempre ficou na via do pensamento. Talvez nao fosse a hora. No filme, Camila Pitanga é Lavínia, personagem que dá o tom da trama e, obviamente, dona dos "lindos lábios" do título. Esposa de um pastor numa comunidade predominantemente indígena no norte do país, Lavínia traz consigo o passado carregado de dores, experiências dúbias, decepções. Nada tão diferente do que acontece com outras mulheres belas na vida real; o risco de serem alvos de "farejadores de vulnerabilidade" é potencialmente semelhante ao risco de serem alvos de um amor intenso. E, mais complicado ainda, ambas as condições podem andar de mãos dadas.
No caso da personagem central do "Eu receberia...", a vulnerabilidade é ainda maior, posto que as experiências anteriores, de infância, fizeram marcas férreas na construção dos significados daquilo que é essencialmente humano, como a identidade própria e a sexualidade. Lavínia possui uma fileira de tijolos de gesso nas paredes de seu eu; um abalo sísmico, uma tempestade, até a iminência de um choque pode arruinar uma estrutura sustentada até então pela sorte.
Até o final do filme, não sabemos em que caixinhas Lavínia arquivava seus relacionamentos. E, por conseguinte, não sabemos quais serão suas reações frente às condições que ela mesma cria, ou que lhe são impostas (ou propostas?), pelo contexto em que vive. Reside aí o mistério, aquele necessário à beleza que comentamos no início do texto. A sensualidade e a volúpia, outros quesitos mencionados, são os maiores demônios da personagem, aqueles que ela não domina até o final, a não ser às custas de si mesma. E a ternura? A ternura é provavelmente o que não se perdeu e o que a manteve viva, apesar das baixas decorrentes de sua guerra interior.
sábado, 21 de abril de 2012
Ilusão
Que dureza aguentar
tamanha ilusão
Pegar-se a sonhar
bem no furacão.
Quase um delírio
no meio da rua
Semi-martírio
um uivo pra lua.
A mente repete
perseveração
Gruda chiclete
no coração.
Fantasia mor
Realidade dói
E esse tom menor
no peito corrói.
Paixão é fuga
pique-esconde da dor
orelha da pulga
carrapato do amor.
Esse jogo eu sei
até a pág. 2
Mas não temerei
o que virá depois.
domingo, 18 de dezembro de 2011
"Um Dia"

Difícil escrever sobre "Um dia", de David Nicholls, fazendo qualquer análise imparcial: seria o mesmo que escrever sobre um namorado novo sem deixar escapar um elogio sequer. O livro me prendeu da primeira página à ultima, e me manteve assim ao longo de alguns trechos relidos, e depois mais trechos, até que reli o livro inteiro, e alguns trechos mais de duas vezes. Paixão pura. É um livro para ler na praia, em casa, no metrô...
Alias, ontem li um comentário da Adriana Falcão na revista Vogue, dizendo que comprou o livro no aeroporto para ler durante um voo longo. Como todos, amou o livro; mas no capitulo 18, ao inves de chorar, sentiu raiva da decisão do autor pelo rumo da história. Bom, o que quero aqui é tentar entender, pelo ponto de vista de Jung, a escolha de Nicholls para este final.
Dexter Mayhew e Emma Morley são dois amigos, ela apaixonada por ele, ele sem se perceber apaixonado por ela. Vemos os dois a cada dia 15 de julho, às vezes juntos, às vezes separados, por 20 capítulos-anos. Os dois se conheceram na faculdade, e a partir da formatura cada um escreve seu caminho, por vezes muito diferentes entre si, porém mantêm o laço afetivo.
Jung criou os conceitos de "animus" e "anima", que representam nossos aspectos masculinos e femininos, respectivamente, e que estão ambos presentes em todos os homens e mulheres. Eles precisariam estar balanceados dentro de nós e, quando por algum motivo estivéssemos negligenciado um desses pontos, deveríamos nos atentar para seu significado. Esses alertas poderiam vir em forma de sonhos - por exemplo, as necessidades negligenciadas da anima viriam personificadas em uma figura feminina fragilizada.
Dos seus 20 e poucos aos quase 40 anos, vemos Dexter, com mais recursos financeiros, gastar tempo em viagens, namoradas e drogas, vivendo apenas para o presente. Naturalmente, sua carreira acaba sendo igualmente intensa e efêmera, em um programa de tv. Sabe fazer o papel de um jovem belo, rico e charmoso, mas não o papel de filho ao se deparar com uma mãe adoecida, e mais pra frente, repete o mesmo fracasso como pai de família. Ele representa as características do animus, arquétipo do masculino, com a impulsividade, a racionalidade imediatista necessária para a sobrevivência, mas que precisa ser equilibrado com outras características da anima.
Assim, acompanhamos Emma tendo que batalhar desde que pegou o diploma, vendo a poeira e o ketchup do restaurante mexicano em que trabalhava lambuzar sobre os sonhos que carregava desde a faculdade. Isso até se cansar, buscar uma profissão que mais se aproximasse de seus desejos, e finalmente começar a vislumbrar seu próprio caminho e ser reconhecida por seu esforço e talento. No caso, pode-se encontrar facetas da anima, como a sensibilidade e a temperança, o cuidado para com os seus e o recolhimento, e que apenas quando ela pôde ser mais "agressiva" pôde arriscar, se mostrar, e enfim conseguir realizar seu sonho.
Os caminhos de Dex e Em parecem sempre compensatórios: enquanto um inicia a vida adulta prorrogando os deveres e planejamentos a longo prazo, a outra precisa plantar as sementes para depois poder colhe-las com tranqüilidade. É como se houvesse uma balança entre os dois, e em um dado momento, os pesos invertessem.
Para Jung, há forças que se compensam e nos levam a uma homeostase, um equilíbrio. Para isso, teríamos que lidar com nossos desbalanços, que fazem parte da vida. Porém, o equilíbrio definitivo seria impossível; o que importa é o movimento que nos guia ao longo da vida em favor desse equilíbrio. A situação final (e ideal) seria conquistar a individuação, termo que ele usou para nomear a situação hipotética em que, grosso modo, estivéssemos totalmente conhecedores de nós mesmos e com nossos aspectos conscientes e inconscientes em harmonia. Algo como um nirvana eterno (até porque, Jung se interessava e estudou muito a filosofia oriental, presente em sua teoria).
Portanto, enquanto vivos, não poderíamos atingir este estágio. Assim, no momento em que anima e animus alcançassem seu balanço perfeito, ambos deixariam de existir como entidades distintas, restando o que está individuado. Um único ser.
Até que chegamos perto do aguardado capitulo 18, no qual vemos Emma e Dexter mais parecidos, mais próximos, e em uma situação que ela define como "não alegre, mas feliz", em que a serenidade contava mais do que a intensidade das emoções. Um equilíbrio, enfim, entre os dois símbolos do feminino e do masculino, personificados nas personagens, e que bem poderia representar o estágio da individuação. Mas a individuação, como já dito, não é humanamente alcançável: enquanto estivermos no percurso da vida, não podemos alcançá-la. E é talvez por isso que, a partir daquele momento, inevitavelmente, os dois tivessem que viver apenas dentro de uma pessoa só - um indivíduo, e não mais como Dex e Em, Em e Dex.
PS: se em um livro já é difícil sintetizar 20 anos de vida, imagine num filme. Então, se estiver na dúvida, aproveite as férias e esqueça a preguiça: leia o livro. E desculpe se minha tentativa de ser sutil sobre a história não foi tão sutil assim.
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