segunda-feira, 17 de agosto de 2009

My Blueberry Nights


Hoje assisti a esse filme de Won-Kar-Wai de 2006, traduzido por "Um beijo roubado", com a Norah Jones e o Jude Law. Ele fala de uma mulher que, perdida por ter sido trocada por outra (não achei termo melhor), começa a conversar com o dono de um café que já viveu algumas coisas, vendo-as então de outro ponto de vista ou, pelo menos, deixando-as mais leves pra ela, recém-ferida. Ela decide viajar para se encontrar, mantendo contato com ele por postais e cartas, enquanto ele a procura incessantemente por telefonemas e também postais, sempre sem sair do lugar - caso ela volte.
Não sei direito o que falar sobre o filme sem acabar contando o final ou sendo repetitiva (falando quase a mesma coisa do que o "Caramelo" na antepenúltima postagem). Mas vale a pena assistir, principalmente por quatro motivos: 1) a estreia na atuação de Norah Jones; 2) a atuação de David Strathairn; 3) a trilha sonora e 4) o tal do 'beijo roubado', maravilhoso - e não só porque envolve o ainda mais maravilhoso Jude Law: sim porque ele tastes tão delicioso quanto uma blueberry pie.

domingo, 26 de julho de 2009

Sobre esta menina do blog

Minha prima tem medo dela, mas eu gosto demais desta menina do blog. Ela está de costas pra nós, mas de frente para o caminho que quer trilhar. Olha para onde pisa, mas sabe de cor as coordenadas para seguir em frente, sabendo também que pode alterá-las quando achar melhor. Sempre busca se equilibrar, mas se sempre busca, é porque nunca consegue totalmente (que bom). Tem no vestido as marcas do caminho pelo qual atravessa, da cidade, da mãe, do pai. Flores e terra áspera.
Gosto de suas cores. Gosto de não sabê-la de frente, mas ao mesmo tempo poder imaginar. Sei que se parece comigo. E, por isso, faço eu parte de seu ambiente, de sua terra e suas flores. Sou eu naquele vestido e no caminho, e no andar hesistante, na cor dos cabelos. Sou eu nestas cores, quem segue a trilha porque quer, tendo certeza passo a passo de saber onde pisar.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caramelo


São dez quase em ponto, e eu acabei de voltar do cinema. Assisti ao “Caramelo”, um filme franco-libanês que fala da vida de mulheres de diferentes idades, porém do mesmo bairro, unidas pela amizade e pela busca pelo amor – seja ele amor por um homem, por outra mulher, pela família, uma pela outra ou por si mesmas. Pra mim, o filme também fala de escolhas que fazemos e as conseqüências delas de modo sério, visto que, em “Caramelo”, elas nos acompanham por anos e, se não forem substituídas (o que parece ficar cada vez mais difícil), permanecem por toda a nossa vida e se tornam nossa vida.

O filme traz personagens lindas e uma delicadeza que surge dos olhares, da fotografia, das canções e das texturas (especialmente das rendas e do caramelo do título, que é doce e dor ao mesmo tempo, pois é o material da cera de depilar feita por uma das personagens em seu salão de beleza). Enfim a beleza (que não à toa é uma palavra feminina) está em toda parte da história.
Engraçado que, enquanto as personagens principais trazem uma certa tristeza que as leva a buscar o outro, as mulheres que, em tese, encontraram alguém com quem viver por todos os dias (ou “por” quem viver “com” todos os dias...) são desenganadas. Disso tudo, portanto, resta o desengano das principais, que buscam no outro uma falta a ser preenchida e que na verdade não existe.

Jean-Jacques Lacan, psicanalista francês, dizia que a mulher não existe. Não existe à medida que seus desejos se voltam para a satisfação de outrem, pois assim se constitui: a mulher tem uma falta primordial que nunca é preenchida. Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, torna-se uma. A mulher é uma construção e, portanto, uma busca eterna. Se ela não existe, também nunca termina.

E é por tudo isso que fui ao cinema sozinha, pela primeira vez.

sábado, 27 de junho de 2009

Desatando nós

Nem sempre as coisas saem como a gente espera, prevê, imagina ou deseja.
Muitas vezes, temos a impressão de que esse fato que muda nossas expectativas é uma surpresa, que irrompe no nosso cotidiano e nos deixa à mercê do desconhecido, vagando por lugares dos quais não nos sentimos pertencentes.
No entanto, em outros momentos podemos pensar o contrário: que houveram sinais vagos, sinais difusos, sinais claros, sinais óbvios de que essas águas desembocariam inevitavelmente aonde foram tornadas, transformadas. E, então, cada um pode sentir o que melhor lhe aprouver: raiva, humilhação, culpa, clareza, contentamento, alívio. Meio que "vai da fé" de cada um.
Pode ser confortador, aconchegante fazer esse exercício, sentir que, de algum modo (i.e., por meio da reflexão, da racionalização, das explicações por vezes ilógicas aos olhos de outrem) - pra muitos e outros, o acaso se mantém sob nosso controle.
E, na mesma maré onde se espalham estes extremos ao mesmo tempo tão próximos, repousam gamas de sentimentos, que nos confudem e atormentam, trazendo à tona ora desejos de naufrágio, ora fôlego para mais braçadas.
Os passos que damos geralmente nos passam despercebidos, a não ser quando têm de ser muito largos, quase saltos. E mesmo estes podem ser tão brevemente esquecidos que nem sabemos que alguma vez os lembramos.

***

Finalizando com a frase de Catherine Millet (que estará na Flip deste ano e, infelizmente, eu não dei meus pulos pra ir) que li em entrevista para a Folha de São Paulo:
"quando você escreve sua vida, ela se torna qualquer coisa da qual você não faz mais parte."

sábado, 23 de maio de 2009

So(u)letrando


Pra ser sincera, não sou super fã do Luciano Huck. Mas muitas vezes assisto ao Caldeirão pra acompanhar minha mãe, que gosta mais do que eu. E, claro, muitas vezes chorei nos quadros à la Pimp My Ride e Extreme Makeover (Lata Velha e Lar Doce Lar). Podem não ser mega originais (mas o paradigma da televisão é mesmo imitar, não é?), mas sempre me comovem.
Talvez por isso sejam tão imitados: os dramas são universais. A gente adora, por um motivo ou outro, ver alguém passando por uma situação difícil de resolver e, de repente, uma ajuda praticamente cai do céu, resolve o problema em uma semana -aliás, o fato de todas essas transformações destes programas ocorrerem em 7 dias não é à toa, né? "E no começo tudo eram caos..."
Mas hoje não era dia de nenhum desses. O quadro a que eu assisti foi o Soletrando, em que crianças selecionadas de todos os Estados do País concorrem a uma bolsa de estudos de 100 mil reais (ou seja, 1/10 do que a gente dá pro campeão do BBB). Eles têm que estudar bastante, ler obras e dicionários, estar familiarizados com nossa língua, além de ter concentração pra não se perder na hora de falar, letra por letra, alguma palavra muitas vezes complicada ou termos nunca dantes utilizados. Quem soletrar errado, está fora -a não ser que todos os adversários também errem na mesma rodada, o que raramente acontece.
Acontece que eu sempre me emociono também no Soletrando! Porque, ao ser eliminada, a criança fica muito chateada consigo mesma: ela falhou, está fora da competição, desapontou colegas, professores... e pais. Sim, eles sempre estão lá, vibrando pelos filhos, e não raramente também fazem a mesma cara de frustração. Já vi pais sorrindo do mesmo jeito, pais chorando e pais absolutamente sérios, intocáveis, quando s filhos saem das cabines e têm de ir embora pra casa sem o troféu e com a cabeça baixa.
Acho que todos nós sabemos como é ruim sentir que não conseguimos orgulhar nossos pais: eu, pessoalmente, sinto a dor de cada uma das crianças que têm que sair do programa. Não que eu não ache útil introduzi-las numa competição saudável, mas quanto mais alto se está (venceram todos de seu Estado e estão competindo num programa de tv), mais intensa a queda. E eu temo que nem sempre haja um colchão suficientemente forte lá embaixo pra ampará-las e mostrá-las que, por mais que caiam, ainda assim serão amadas, igualmente amadas.