quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Oscar 2014: Jasmine, Dr Stone e Alabama (não, não são princesas da Disney)



Estes foram os três primeiros filmes indicados ao Oscar 2014 aos quais assisti. A ideia era escrever um post para cada um, mas na hora cotidiana mais propícia ao insight - o banho nosso de cada dia -, percebi alguns laços que poderiam render alguma reflexão.

De cara, os filmes têm mulheres no centro da trama, personagens extremamente distintas entre elas. Dr. Ryan Stone, de "Gravidade", personagem vivida a duras penas (ainda que impecavelmente) por Sandra Bullock, é uma engenheira médica em sua primeira missão espacial. Séria, racional, ela de início mostra-se sensível apenas às desagradáveis sensações de enjoo e mal-estar causadas pela ausência de gravidade. Aos poucos, se vê dependendo da ajuda de um astronauta experiente, do qual recebe as coordenadas para sobreviver a um acidente do qual ela é a única sobrevivente. Para isso, precisa chegar ao extremo, identificando o que é imprescindível para se manter viva, encontrando suas verdades e desapegando-se de todo o resto. 

Jasmine, brilhantemente encarnada por Cate Blanchett, de "Blue Jasmine", é uma tipica personagem neurótica de Woody Allen em diversos aspectos. Racionalizações, ansiedade frente às fantasias sobre como seu eu se apresenta ao outro, angustia e um enorme impacto emocional causado por qualquer abalo de mínimo grau são constantes. Porém, ela ainda tem que lidar, com pouco sucesso, com um sentimento dos mais pesados, aquele que sussurra no ouvido palavras de julgamento e punição - a culpa.

Alabama, ou antes Elise, visceralmente desenhada por Veerle Baetens em "Alabama Monroe", é uma tatuadora, ela mesma cheia de (lindas) tatuagens, de pele grossa e voz doce. Em um certo momento, somos levados a descobrir que vários desenhos de seu corpo eram antes declarações a amores antigos, que ela apagou (jogando tinta e transformando em outra coisa) quando terminaram. E é assim que Alabama tenta fazer: apagar, mudar, transformar suas perdas. Mas a epiderme é superficial demais, e transformar sem profundidade não apaga marcas que alcançam outros tecidos, órgãos, código genético, como duramente constatam ela e seu par, o (charmoso, mas não unânime) tocador de banjo, homem da ciência, ateu Didier.

As perdas que a vida pautou a Ryan, Jasmine e Alabama são irreparáveis. Jamais deixarão de gritar em suas memórias, em sua saúde, em suas relações. Além de vitimas da traição da vida, como Alabama diz, elas são também exiladas em seu sofrimento. São pessoas que, em um certo momento, se veem sem um porto seguro, emocional ou geográfico. Entretanto, a partir deste ponto, onde os destinos das três se encontram, há a divergência; cada uma utilizará os recursos que lhe cabem para retomar a direção da própria vida. No rolar dos dados, as faces disponíveis: suportar, não suportar ou superar.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O mito da (bat)caverna




É um pouco estranho realizar o sonho de tirar novas férias em um intervalo de 3 meses, mas nada como a adaptação!
Hoje meu dia de férias incluiu uma boa caminhada ao sol, sorvete Hägen-Dazs e ajudar minha prima Luiza em um trabalho de escola. Matéria: Filosofia. Tema: analisar a alegoria da caverna platônica com uma obra cultural. Obra escolhida pela Luiza: The Dark Knight Rises. Abaixo, o que virou essa história...


"There is a prison in a more ancient part of the world. A pit where men are thrown to suffer and die. But sometimes a man rises from the darkness. Sometimes the pit sends something back."
(Há uma prisão numa parte mais antiga do mundo. Um poço onde os homens são jogados para sofrer e morrer. Mas as vezes um homem emerge das trevas. As vezes, o poço manda algo de volta.)

Em "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge", podemos associar a alegoria de Platão em níveis, do individual ao coletivo, constatando que a realidade é objetiva e subjetiva - ou seja, é da realidade apresentada por um outro (ou por um acontecimento) que podemos encarar e compreender a nossa própria realidade, moldada pelo que somos até aquele ponto. 

Em nível individual, é óbvio pensar na transformação pela qual a personagem Bruce Wayne/ Batman passa ao longo da trilogia. 

O filme começa com Wayne voluntariamente retirado da sociedade, após perder a esposa e assumir falsamente a culpa pela morte de Harvey Dent. Ficamos sabendo que, num passado distante, ele integrava um grupo chamado Liga das Sombras, cujo objetivo era treinar e capacitar as pessoas nas artes de luta e estratégia de combate, com o propósito final de "limpar Gotham City da escória". Quando Wayne descobre que isso envolve eliminar os cidadãos da cidade a um preço muito caro, ele decide abandonar o grupo (não sem antes incendiar o local de treinamento). O problema é que há um mercenário chamado Bane, também treinado pela Liga, disposto a continuar com os objetivos de destruir a Gotham cheia de vícios.

Vários personagens aparecem para Wayne como a "realidade" e tentam-no fazer encará-la. O policial Robin John Blake lhe conta que o orfanato não é financiado pelo grupo financeiro de sua família há dois anos, o detetive Gordon pede que ele ajude a cidade a livrar do mal que eles mesmo causaram. O ápice ocorre quando Alfred lhe pede que fique fora da luta contra Bane e tente viver sua vida, pois a esposa falecida que ele tanto honrava em luto e solidão estava pensando em deixá-lo antes de morrer; ao invés de convencê-lo, isso acaba aumentando o desejo de Wayne salvar a cidade novamente.

Além dele, podemos pensar outras personagens que "saem da caverna", como a Mulher-Gato, que percebe que sua realidade era maior do que fazer pequenos golpes e julgar quase como "direito" roubar os mais ricos. Podemos também pensar que o núcleo dos vilões da história é o único que não passa por uma transformação, não sai de sua "caverna": e é por isso que ficam presos em suas ideias, jogando com as palavras, sombrias.

No nível coletivo, é possível pensar que a própria sociedade de Gotham passa por uma transformação (ou pelo menos começa a se transformar). Afinal, como o vilão Bane comenta, "Eu sou um mal necessário"; não dá para dizer que os cidadãos são totalmente inocentes (como Ms. Tate comenta, "Inocente é uma palavra muito forte para falar de Gotham"). Não podemos negar que a violência e a destruição que são defendidas pelos vilões do filme podem, de fato, ser consequência do modo de viver daquela sociedade, ainda que não seja a justificativa para uma destruição. De qualquer maneira, vemos alguns fragmentos de revolta e de tentativa de lutar contra aqueles que tentam dominar e acabar com toda a cidade, e também vemos alguns cidadãos que fecham as portas de casa e não querem tentar fazer nada. A mudança pode ser através da luta, ou através de uma reflexão que venha apenas com o tempo.

E é aí que a análise individual se encontra com a análise do coletivo: podemos pensar que Bruce Wayne "mata" o Batman (Cavaleiro das Trevas, ou seja, da escuridão, das sombras) porque ele já não pode mais viver nas sombras. Ele viu que a realidade é maior, e talvez ele tenha percebido que Gotham precisa viver com as próprias pernas. E ele também.

O que devemos saber é que, uma vez que saímos da caverna, não há como voltar para ela. Pelo menos não voltamos como éramos antes, e sim transformados. Nosso olhar é outro, pois já vimos a realidade como ela é. E essa realidade, mesmo ela, não é imutável; ela se amplia conforme podemos conhecê-la e transformá-la. E, para sair da caverna, não podemos ser como as pessoas que se limitavam a rir ou não acreditar no homem do mito, que deixou de ver as sombras. Temos que abandonar os medos e ter a coragem de olhar por nós mesmos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O pedaço da vida que são as férias

(menino ouvindo áudio sobre obra de Miró, no Museum of Modern Arts, NYC, em ago/13)

Férias são sempre boas, mas não são boas sempre - para uns, ela traz um certo sentimento de vazio pelo ócio excessivo, para outros traz uns quilos a mais. Já ouvi gente que caiu na cama, doente, no primeiro dia sem ter que bater o ponto (o que não é à toa nem coincidência, na maioria das vezes, vamos combinar!). E, claro, tem férias que só são ruins no momento em que acabam.

Sou daquelas pessoas que fazem de tudo para aproveitar bem as férias, seja viajando (o que me dá uma certa preguiça de resolver sozinha, mas para isso conto com uma família enorme e em especial uma prima-irmã sempre disposta a viajar e resolver todos os procedimentos burocráticos com mais facilidade do que preparar comida congelada - no caso dela, quero dizer isso literalmente!), seja aproveitando os dias em casa, fora da loucura do trabalho (o que, digamos, no meu caso também é literal, sem conotações pejorativas do termo "loucura"). 

Este ano, passei metade das férias em viagem. Chego, assim, a uma outra modalidade de "cons" deste período de descanso: o o stress natural das viagens de férias. Nem que esse stress seja vivido naturalmente e com muito bom humor, é inegável que ele existe. Não é só pelo hotel que se mostrou uma decepção, ou pela simpatia de guerra dos taxistas, ou pela discordâncias entre as partes sobre qual programa fazer; há o stress do corpo pelas mudanças na rotina, o fuso horário, o jet lag.

Mas "sair de cena" é importante. Quando há a possibilidade de viajar, é melhor ainda, pois você poderá trazer uma nova experiência cultural -  e experiência nunca é desperdício. Se não dá para viajar, também pode ser proveitoso imersar-se em uma experiência particular que seja de seu agrado, como arriscar-se a uma nova modalidade de lazer, o que pode ser em níveis distintos de novidade. Por exemplo, gosta de filmes e quer assistir a filmes novos. Que tal conhecer um gênero que não costuma ser sua primeira escolha - um documentário, ou um filme de terror? Em outro nível de novidade, vale até rever um filme bacana e prestar atenção a algo que nunca foi seu foco de atenção, como os efeitos sonoros, ou o figurino.

Férias não representam um hiato da vida, e sim do aspecto "produtivo" da vida, seja do trabalho, seja dos estudos. Esperar as férias não é esperar que as regras da vida, que sempre impera, às vezes frustra e nunca é perfeita, sejam revogadas neste intervalo. Assim, não será necessariamente um mar de rosas, a não ser que suas férias sejam pequenas o suficiente para caber um mar de rosas. 

Mas se a alma for maior ou se assim o quiser, vale a pena ir além do convencional - mergulhe!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Samba do só



O que foi essa atitude vil?
Eu nem sei o que dizer, viu
Só posso sentir decepção
Você decepou meu coração

Se não pode dizer por quê
Garanta apenas que isso
Nunca mais vai acontecer, porque
Minha certeza sempre foi na bondade
Quero crer num amor de verdade
E o que tenho no peito dá pra dar e vender

O que foi essa atitude vil?
Eu nem sei o que dizer, viu
Só posso sentir decepção
Você decepou meu coração

Sei que devo desejar sorte
Que sua vida corra como você quer
Mas sei que nela já não cabe uma mulher
Não cabe mais ninguém além de ti

Eu sei
Que o perdão é uma virtude, como queira
Mas fico triste quando fico de bobeira
Sozinha a minha mágoa há de sumir

O que foi essa atitude vil?
Eu nem sei o que dizer, viu
Só posso sentir decepção
Você decepou meu coração

sábado, 4 de maio de 2013

C.

[obra de Berthe Morisot, não encontrei nome, data. Ela é uma de minhas pintoras preferidas desde que vi suas obras pessoalmente]

Pra ter uma experiência boa, não precisa sair para o melhor lugar da cidade, o point indicado pelo guia dos jornais. Para viver, a abertura de si exigida é mínima.
Agora há pouco, por volta das onze da noite, desci para a academia do flat. Crente de que estaria sozinha, dado o horário, assustei-me com uma mulher, também descendente de japoneses, semelhante também na altura e no comprimento dos cabelos, pretos. Ela chegou logo em seguida e perguntou se poderia ligar a tv. Puxei algum assunto, enquanto escolhia a música do fone e respondia a mensagens no whatsapp (não consigo fazer uma coisa de cada vez, quase nunca). 
Não, não moro aqui, estou hospedada. Você estuda? Ah, que bom... Mas é concurso? Pergunto porque minha filha também faz Psicologia. Ela gosta da área de Saúde Mental, é a sua? Ah... Poxa, que bom. E sua mãe se preocupa com você, né - acabou de ligar... Área difícil a de vocês, se bem que pra médico também está difícil, sou médica... Gineco e Oncogineco, também não é fácil. Só no particular não dá. 
Sim, ela é a do meio, está no último ano. Tem a mais velha e tenho mais um. Cresceram sem o pai, mas falo que não é porque meu casamento não deu certo que eles... Tem que tentar, né? Você, então, uma menina bonita! Precisa insistir, não pode deixar pra lá. Até porque depois vêm os filhos, e aí você tem uma razão de viver - veja sua mãe, estava lá pensando em você agora... 
Depois que separa, vem os outros homens, mas muitos pedem pra escolher, ou os filhos, ou eu. Aí eu digo: adivinha?? Ah, sim, eu tenho um amor agora. Mas é difícil eles assumirem os filhos dos outros. Eu falo que, se ele não está preso a mim, também não estou a ele, e eles têm medo, é bom. Tenho esteira em casa, só eu uso. Agora há pouco comi uma massa no restaurante com minha amiga... 
Mas você não pode desistir, tem que tentar. Você conhece o fulano? Ele mora aqui e é médico. São gêmeos e, olha!, estão solteiros... Um é médico, o outro, advogado. Fica esperta. Bom, acho que não aguento mais.  Continue no caminho certo, seus pais devem ter muito orgulho. Foi um prazer conhecer você.

...foi meu!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A separação da dor

[The Sleeping Girl. Tamara de Lempicka. Óleo sobre tela, 1930. Stephen Myers -Worth Avenue fine Arts, EUA]

Quantas vezes nos acontece de passar o dia com uma dor de cabeça forte, intensa, latejante, para enfim percebermos que, na verdade, a dor é em um dente, lá num cantinho da boca, e nada mais que isso? É o fenômeno da generalização da dor. Há situações em que é impossível para nosso cérebro detectar o foco exato de dor, seja ela por um corte profundo em uma situação de intenso estresse, em que a necessidade de fugir dali é adaptativa e, portanto, é melhor que não se tenha consciência da dor. Ou, simplesmente, porque a região afetada possui terminações nervosas que contribuem para esta dificuldade (como a dor de dente, por exemplo).

Emocionalmente falando, há outras maneiras de sentir dor de maneira generalizada. Como nas grandes dores do corpo, aqui não entra o tempo lógico; vive-se a dor sem olhar para as horas e o calendário. A vivência da dor pode ser pulsante, talvez repentina, daquelas que "retorcem", pode ficar crônica. Por outro lado, as dores desta natureza não passam com analgesia - às vezes é preciso, sim, anestesiá-las com medicação; porém, a resolução  envolve algo mais similar à fisioterapia: é aos poucos e no sucessivo contato com a própria dor que deixamos de senti-la.

Mais do que superá-la, é através do entendimento da dor (e isso envolve o contato com ela - nem que seja um contato "cirúrgico", cuidadoso, acompanhado, em zona segura) que podemos identificar de onde ela vem. Pois, da mesma maneira que a dor de dente, o espraiamento de uma dor emocional prejudica o discernimento do ponto exato da dor. Sentimos apenas a dor, e que dor!, precisa mais do que isso?? 

Sim. Para que não culpemos vítimas, não sejamos injustos com as outras pessoas e com nossos sentimentos (entrando assim na cadeia multiplicativa da dor), precisamos de uma leve resignação. Aceitar que a dor, sim, está lá; e nos concentrarmos para extraí-la sem maiores efeitos colaterais, tendo a grata surpresa de conferir seu real (e menor) tamanho.

Pílula de Pensamento 6



[Storyboard de Akira Kurosawa]

Uploading ditos populares:

"Quem se esmera às vezes cansa."

sexta-feira, 1 de março de 2013

A vida e a arte

Deve ter sido o nome mais óbvio das minhas postagens. Mas o que precisa ser destacado aqui não é o meu título, nem meu texto. É esse vídeo (o primeiro que coloco aqui), e que me tocou muito. Porque muito falamos sobre o adeus, a despedida, a perda - às vezes, nos atrevemos a falar do luto. Porém, raramente falamos sobre a vida além da separação. E, sim, ela existe. Não somos todos poetas ou artistas, nem podemos nos dar ao luxo de um ritual de adeus que envolva a Muralha da China. Mas, ainda assim, a vida pode nos brindar com surpresas. Para chegar lá, há um duro caminho a percorrer, e, durante pelo menos uma parte, devemos fazê-lo sós.

“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem ela saber, e foi assim.” Maeve Jinkings (Traduzido por Rodrigo Robleño)


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: O lado bom e/ou negro do humor (Django Livre e O Lado bom da Vida)



Sim, esta noite é o Oscar, e eu fatalmente não consegui assistir a todos os concorrentes antes da cerimônia para poder dar meus palpites com conhecimento de causa. Claro que meu otimismo (ou hipomania, emprestando esse termo psiquiátrico) não era tão grande (mania) a ponto de achar que veria todos os candidatos de todas as categorias (até porque muitos não estrearam no Brasil). Mas pelo menos entre os possíveis vencedores de Melhor Filme, eu gostaria. Mas não.

De qualquer forma, aqui vão os dois últimos candidatos que consegui ver em tempo: "Django Livre", de Quentin Tarantino, e "O Lado Bom da Vida", de David O. Russel. Além de eu ter gostado muito de ambos e, entre os que vi, torcer para um deles ganhar (mesmo apostando em "Argo" ou "Lincoln" pela lógica da coisa), são filmes que chamam a atenção porque um forte motivo em comum para que ambos funcionem muito bem é aquilo que denominamos "química" entre os atores.

Sim, porque além de todos os critérios primeiramente técnicos, um filme também funciona muitas vezes por aquela variável independente, aquela faísca que se forma não pelo friccionar mecânico de dois pauzinhos ou por uma boa escolha angular, e sim por algo que é observável apenas a partir do momento em que passa a existir -  não se pode prever, antecipar ou controlar.

À parte de ótimos roteiros, ótimas construções de diálogos em ambos os casos, Lawrence-Cooper e Foxx-Waltz funcionam (nesse último caso, até no nome a sintonia é praticamente uma mistura sonora). Apesar de toda a tristeza que é intrínseca aos temas (a escravidão, o transtorno mental, a separação forçada de um casal, a não-aceitação de uma separação, a violência, o preconceito, e assim podemos ir desencadeando outros subtemas), apesar de podermos sentir tudo isso nesses filmes, ainda assim somos capazes também de viver um sentimento sublime, que ajuda a amenizar o que dói - o humor. Para a psicanálise, por exemplo, um dos mecanismos de defesa mais elaborados, superior no sentido de que podemos utilizá-lo adequadamente conforme somos capazes. Às vezes voluntário e muitas vezes involuntário, o humor nos ajuda a trazer luzes coloridas aos nossos lados sombrios.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Pílula de Pensamento 5


[London Eye, clicada pela minha prima Carol]

"Tudo se aproveita
quando a alma não é estreita."

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: As Aventuras de Pi (ou "De onde vem a calma", Los Hermanos)




Um desses filmes de discussão inesgotável, podendo ser explorado sob diversos ângulos, “As Aventuras de Pi”, para mim, já recebe menções sobre a tradução do nome, que poderia ter seguido fiel ao original, sem grandes problemas. “Life of Pi” se aproxima mais ao que, a partir do ângulo que escolhi, de fato se referem as situações/ “aventuras” que o personagem principal – Pi, cuja explicação do nome verdadeiro é um dos momentos divertidos na história – tem de enfrentar.

Explico. Há aqui os componentes necessários para a saga de um herói: perdas, sacrifícios, luta e a redenção. Porém, o filme não fala de um herói – Pi não tem nada a mais do que qualquer um de nós; nem superpoderes, nem inteligência extraordinária, a não ser uma curiosidade algo descomunal por diferentes religiões. Na verdade, o que ele quer entender é como podemos acessar Deus, essa força maior que as religiões tentam explicar por meio de suas histórias. Apenas isso. E não há nada mais anti-herói e mais humano.

E o que seria Richard Parker? Bem, para minha prima caçula, Luiza, o tigre seria “uma parte dele mesmo” – a agressividade, a força, o que é instintual. Ou poderia também representar o equilíbrio necessário em nossas vidas: sem o tigre lhe ameaçando e ao mesmo tempo lhe ocupando o tempo e a mente, Pi sabiamente percebe que não sobreviveria aos 227 dias no meio do mar. Richard Parker poderia, portanto, estar dentro ou fora de Pi. Poderia ser seu lado sombrio e regido pela ódio, ou poderia ser aquele trabalho difícil, aquele recorde a ser superado, aquele tratamento de fertilização.

Ao longo do filme, me pegava pensando que jamais seria uma sobrevivente de um naufrágio. Sério. Não teria a paciência e tranquilidade dosadas com atenção e energia necessários. Jamais, jamais (esse segundo em sotaque francês pra dar mais ênfase) conseguiria. Depois, constatei que “A vida de Pi” (tradução livre, como se dizem) é uma linda metáfora sobre a vida, no melhor estilo oriental que conhecemos. E, sendo assim, posso muito bem ser capaz de enfrentar meus próprios tigres – pois o que realmente importa, o que realmente somos, é independente do percurso que escolhemos, de modo que a nós cabe definir o andamento da própria história.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: Os Miseráveis



There was a time when men were kind
When their voices were soft
And their words inviting.
There was a time when love was blind
And the world was a song
And the song was exciting.
There was a time ... then it all went wrong
(...)
But the tigers come at night,
With their voices soft as thunder,
As they tear your hope apart
As they turn your dreams to shame

["I dreamed a dream", música de Claude Michel-Schonberg, 
letra em inglês de Herbert Kretzmer]


Para mim, a música-chave de "Os Miseráveis" (mais do que emocionante na interpretação de Anne Hathaway) é como um prelúdio que narra o que acontecerá ao longo do filme. Mais ainda, é uma sinalização do que está por detrás de um enorme sentimento de estranheza que permeou minha sessão, e a qual pude começar a decifrar somente após algum tempo. 

A estranheza que me saltava aos olhos, que me fazia questionar - afinal - que pessoas eram aquelas e por quê elas eram tão diferentes de mim, de nós, consistia na coragem (ali exibida por todos os personagens) em assumir e lutar por aquilo em que se acreditava: um novo curso de vida, uma justiça a ser respeitada, uma outra organização social e política, o nascer dum amor.



Em que parte da História essa coragem se perdeu?



Tenho a impressão de que o próprio filme traz uma ideia. Quando os jovens revolucionários franceses se veem sem o apoio da população e morrem, convictos do ideal de que após eles surjam outros - justificando assim suas mortes - talvez esses outros jamais tenham aberto suas casas, encerrados no que sempre esteve ali, atrás daquelas portas. 

O medo não é o oposto da coragem, e sim a inércia. Talvez, em algum momento ("then it all went wrong"), os riscos tenham sido minimizados. As escolhas passaram a valer menos. À morte coube menos da metade da glória que lhe era concebida e, assim, não havia mais o que bradar, ameaçando aquela que é inevitável.


As revoluções se desenvolvem em silêncio. Porém, quando a hora é indevida e o ato se silencia de modo prematuro, elas são consumidas pela própria energia. Implodem.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ele de novo (o amor)



[arte de Christiane Vleugels]

Só porque o coração é o primeiro órgão que indica ao médico que estamos vivos - que existimos - na barriga da mãe, não quer dizer que seja fácil lidar com ele. Na verdade, muitas vezes é difícil entender o que ele quer dizer quando acelera ao encontrarmos aquela pessoa, e ainda mais duro decifrar aquele aperto que ele dá quando dizemos adeus.


Como o entendimento "consciente" só se dá quando adquirimos o mínimo de linguagem necessário para traduzir sensações em palavras, imagino como foi a primeira vez que sentimos um prazer tamanho que balançou nosso coração. Provavelmente foi lá atrás, num colo do pai ou abraçando a mãe, e na ocasião só pudemos babar ou, até, molhar as fraldinhas de emoção.

Mas, se até a vida adulta, identificar e falar dos sentimentos é higher level para qualquer ser humano, penso cá com meus botões sobre a diferença de pesos e medidas entre homens e mulheres nesse quesito.

Para nós, de certo modo é mais fácil: aquela velha história de que à menina é autorizado chorar, ser "manteiga derretida" (com esse mundo light, nem isso podemos ser, no máximo nos é autorizado ser uma Becel derretida). O homem, esse não chora. Bom, se não chora, faz o quê, então?

Duvido que muitas pessoas indagaram a continuação desse dito popular tão plutocrático. Faz o quê, se não chora mas está triste, se quer um colo, se a dor no peito está insuportável, ainda mais no calar da noite?

Recalca. Ignora. Nega. Verbos que, por si só, deixam claro o crime que é dizer que "homem não chora". Então, a saída é adoecer. É errar e só conseguir perceber que se perdeu depois que a ponte atrás já se desfez.

E, por essa enorme falha no cultivo dos sentimentos masculinos, eles tampouco sabem como agir frente a algo que lhes provoque um mínimo de dor. É mais fácil sair de cena, partir, ir embora: essa é a escolha-padrão desde os tempos das cavernas.
E aí... aí vem a Becel.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Do Amor (sempre ele)


Você pode ser linda; ter um cabelo perfumado; bom hálito. Você pode ser inteligente, falar de arte e de futebol usando um mesmo argumento essencial. Você pode ser engraçada, rir de si mesma, permitir que uma briguinha vire motivo de piada. Você pode ser companheira, lembrar-se de perguntar como foi o trabalho, vibrar com uma conquista, topar um programa de índio sabendo que pode ser divertido. Você pode ter tantas qualidades, mas sempre haverá alguém com qualidades parecidas, ou relativamente melhores. No fim, não é o conjunto de suas qualidades que determinará o sucesso ou o fracasso do seu relacionamento. Este, como já sabemos, é feito de dois; suas qualidades e seus defeitos são apenas uma pequena parcela do todo dinâmico e imprevisível que é uma relação. O que é qualidade pra um, pode não ser pra outro. Sua beleza pode deixá-lo inseguro. Seu companheirismo pode parecer uma invasão de privacidade. Sua insegurança pode ser a engrenagem que o faz se sentir forte e poderoso. Não, você não fez nada de errado, você não faltou com nada, você não excedeu em nada; e ao mesmo tempo sim, você fez tudo isso, e mais um pouco. Depende do ponto de vista, e ele nunca é monoangular quando o que se está em jogo é uma trama que envolve (pelo menos) dois seres com toda essa bagagem nas costas.

domingo, 2 de setembro de 2012

Concêntrico


[Crédito da foto: Miles Aldridge, "Dreamy" para Vogue Itália, 2009. www.milesaldridge.com]

Cá me encontro, ou desencontro (de mim mesma). Muitas tarefas me aguardam. Parte delas habitualmente exige de mim um certo esforço para levar a cabo, considerando que são protocolares e exigem um raciocínio concentrado constante, no qual me vejo tolhendo minha criatividade, pois ela não cabe ali. Porém, sempre me foi prazeroso o momento do fim, mesmo dessas tarefas protocolares, aquele parágrafo final que vem junto com o pensamento “Ficou bom! Terminei!” – este geralmente acompanhado de uma expressão como “At last!”, “Graças a Deus!”, ou qualquer outra referência moderna de “Parla!” ou “Heureca!” – com tanta gente no mundo e tantas coisas já descobertas, nossos grandes passos são menores do que os de nossos antepassados.
O problema é que ultimamente mesmo estas engatinhadas me são raras. Coisas para fazer não faltam, e nos últimos tempos me flagro pegando desvios para fazer tudo, menos o que prenda demais minha concentração – parto pras atividades “mão na massa” ou, poderia dizer, “corpo em movimento”: coleta de dados do mestrado, entrevistas, trabalhos manuais, culinária (é tão terapêutico cortar legumes!), academia. Academia mesmo; nunca na história desse corpo que me pertence fiz render tanto a mensalidade salgada da academia que frequento. Em suma, tudo que eu possa fazer sem ter que deixar de lado o alvo principal dos meus pensamentos: uma nova paixão. Um enamoramento, como penso ser mais bonito dizer.
Paixões, todo mundo que teve já sabe, são como um agente infeccioso que invade nosso organismo e exige que ele trabalhe a todo vapor a fim de dar conta de suas exigências; seja por meio de uma febre literal, seja através de outras maneiras de aliviar um pouco a tensão provocada quando seu corpo está habitado por outro ser vivo além de você. Porque, assim como acontece na invasão das bactérias, fungos e outros microorganismos, quando estamos apaixonados é como se o objeto da paixão estivesse constantemente nos habitando. E é por isso que, no meu caso, esse ser alienígena que se encontra em minhas entranhas me impede de cumprir com (pelo menos algumas) obrigações profissionais.
Quero esclarecer: meu hiperego não foi dar uma volta na praia, a ponto do ego abrir as asinhas e ficar negligente com meu trabalho. É só que minha energia, minha libido no sentido junguiano, não está tão direcionada para esses propósitos. A verdade é que ela esteve neste setor de investimento – a carreira –, quase que exclusivamente, durante dois anos: neste período, nenhum corpo estranho me invadiu dessa maneira. Nesse intervalo cronológico, nenhuma paixão foi tão grande a ponto de libertar meus olhos do princípio de realidade, deixando-me nas mãos do prazer e distorcendo o que é objetivo, alargando a importância de uma música ou de um gesto, reduzindo à menor potência (existe potência zero?) a relevância das notícias do jornal. Mensalão quem? Mensalão pra mim é o tempo não-cronológico, aquele interno, quando um par de dias sem notícias é tão insuportável quanto um grande mês, um mensalão.
Há outros sintomas: sinto prazer, sinto raiva, sinto euforia. Sinto uma felicidade boa, daquele tipo que o personagem de Will Smith define tão bem em “À Procura da Felicidade”. Fico insegura e tento ignorar minhas projeções, mas no fim do dia tenho pesadelos com tudo que era pra ficar embaixo do tapete. Tento colocar tudo em seu devido lugar, devolver-lhes as proporções originais. Mas aí vem a infecção e transfigura tudo novamente.
Como já nos dizem os cientistas, a paixão (assim como os processos infecciosos) não dura muito tempo, pois não somos programados para viver nessa “inconstância constante”; não resistiríamos a tamanha bagunça, que nos tira a ordem das coisas. É aí que a paixão beira a loucura, como já nos dizem os poetas.
Não sei se eu preciso me curar para entender o mensalão, já que no fim ele mesmo tem como pano de fundo outras paixões humanas. O que sei é que escrever sobre esse enamoramento é meu remédio, me devolve, ainda que ilusoriamente, a consciência e o controle. E, até a outra dose prescrita, volto para minhas tarefas.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

De que é feita a beleza




Há quem diga que mulheres bonitas possuem uma maldição, que é a própria beleza. E esta, difícil de explicar, poderia ao menos ser compreendida dentro de um quê de mistério, sensualidade e volúpia - tudo isso "sin perder la ternura", que para o homem-filho é essencial. Soma-se também um componente essencial, que é a fagulha de vulnerabilidade, nem de mais, nem de menos, às vezes fisgada apenas num breve olhar.


Também se pode pensar que, para ser bonita, é preciso um mínimo de auto-conhecimento (pois só quem se conhece minimamente sabe o ângulo, o lugar, o músculo a ser contraído naquele exato momento, para ser bonita. Sim, beleza não é apenas um estado de graça, é também um estado de esforço consciente). Mas será possível ser igualmente bela sem nada saber de si? Talvez na posição mais extrema, que é aquela em se está tomada pela loucura. Nesse caso, a beleza subverte os requisitos triviais e assume outros, inexplicáveis pela lógica.



Acabei de assistir ao "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", adaptação de Beto Brant da obra literária de Marçal Aquino. Livro, aliás, que para mim tem um valor especial, dado que há (muitos) anos eu penso em ler, mas que, de fato, sempre ficou na via do pensamento. Talvez nao fosse a hora. No filme, Camila Pitanga é Lavínia, personagem que dá o tom da trama e, obviamente, dona dos "lindos lábios" do título. Esposa de um pastor numa comunidade predominantemente indígena no norte do país, Lavínia traz consigo o passado carregado de dores, experiências dúbias, decepções. Nada tão diferente do que acontece com outras mulheres belas na vida real; o risco de serem alvos de "farejadores de vulnerabilidade" é potencialmente semelhante ao risco de serem alvos de um amor intenso. E, mais complicado ainda, ambas as condições podem andar de mãos dadas.



No caso da personagem central do "Eu receberia...", a vulnerabilidade é ainda maior, posto que as experiências anteriores, de infância, fizeram marcas férreas na construção dos significados daquilo que é essencialmente humano, como a identidade própria e a sexualidade. Lavínia possui uma fileira de tijolos de gesso nas paredes de seu eu; um abalo sísmico, uma tempestade, até a iminência de um choque pode arruinar uma estrutura sustentada até então pela sorte.



Até o final do filme, não sabemos em que caixinhas Lavínia arquivava seus relacionamentos. E, por conseguinte, não sabemos quais serão suas reações frente às condições que ela mesma cria, ou que lhe são impostas (ou propostas?), pelo contexto em que vive. Reside aí o mistério, aquele necessário à beleza que comentamos no início do texto. A sensualidade e a volúpia, outros quesitos mencionados, são os maiores demônios da personagem, aqueles que ela não domina até o final, a não ser às custas de si mesma. E a ternura? A ternura é provavelmente o que não se perdeu e o que a manteve viva, apesar das baixas decorrentes de sua guerra interior.

sábado, 21 de abril de 2012

Ilusão


Que dureza aguentar
tamanha ilusão
Pegar-se a sonhar
bem no furacão.

Quase um delírio
no meio da rua
Semi-martírio
um uivo pra lua.

A mente repete
perseveração
Gruda chiclete
no coração.

Fantasia mor
Realidade dói
E esse tom menor
no peito corrói.

Paixão é fuga
pique-esconde da dor
orelha da pulga
carrapato do amor.

Esse jogo eu sei
até a pág. 2
Mas não temerei
o que virá depois.

domingo, 18 de dezembro de 2011

"Um Dia"


Difícil escrever sobre "Um dia", de David Nicholls, fazendo qualquer análise imparcial: seria o mesmo que escrever sobre um namorado novo sem deixar escapar um elogio sequer. O livro me prendeu da primeira página à ultima, e me manteve assim ao longo de alguns trechos relidos, e depois mais trechos, até que reli o livro inteiro, e alguns trechos mais de duas vezes. Paixão pura. É um livro para ler na praia, em casa, no metrô...
Alias, ontem li um comentário da Adriana Falcão na revista Vogue, dizendo que comprou o livro no aeroporto para ler durante um voo longo. Como todos, amou o livro; mas no capitulo 18, ao inves de chorar, sentiu raiva da decisão do autor pelo rumo da história. Bom, o que quero aqui é tentar entender, pelo ponto de vista de Jung, a escolha de Nicholls para este final.

Dexter Mayhew e Emma Morley são dois amigos, ela apaixonada por ele, ele sem se perceber apaixonado por ela. Vemos os dois a cada dia 15 de julho, às vezes juntos, às vezes separados, por 20 capítulos-anos. Os dois se conheceram na faculdade, e a partir da formatura cada um escreve seu caminho, por vezes muito diferentes entre si, porém mantêm o laço afetivo.

Jung criou os conceitos de "animus" e "anima", que representam nossos aspectos masculinos e femininos, respectivamente, e que estão ambos presentes em todos os homens e mulheres. Eles precisariam estar balanceados dentro de nós e, quando por algum motivo estivéssemos negligenciado um desses pontos, deveríamos nos atentar para seu significado. Esses alertas poderiam vir em forma de sonhos - por exemplo, as necessidades negligenciadas da anima viriam personificadas em uma figura feminina fragilizada.

Dos seus 20 e poucos aos quase 40 anos, vemos Dexter, com mais recursos financeiros, gastar tempo em viagens, namoradas e drogas, vivendo apenas para o presente. Naturalmente, sua carreira acaba sendo igualmente intensa e efêmera, em um programa de tv. Sabe fazer o papel de um jovem belo, rico e charmoso, mas não o papel de filho ao se deparar com uma mãe adoecida, e mais pra frente, repete o mesmo fracasso como pai de família. Ele representa as características do animus, arquétipo do masculino, com a impulsividade, a racionalidade imediatista necessária para a sobrevivência, mas que precisa ser equilibrado com outras características da anima.

Assim, acompanhamos Emma tendo que batalhar desde que pegou o diploma, vendo a poeira e o ketchup do restaurante mexicano em que trabalhava lambuzar sobre os sonhos que carregava desde a faculdade. Isso até se cansar, buscar uma profissão que mais se aproximasse de seus desejos, e finalmente começar a vislumbrar seu próprio caminho e ser reconhecida por seu esforço e talento. No caso, pode-se encontrar facetas da anima, como a sensibilidade e a temperança, o cuidado para com os seus e o recolhimento, e que apenas quando ela pôde ser mais "agressiva" pôde arriscar, se mostrar, e enfim conseguir realizar seu sonho.

Os caminhos de Dex e Em parecem sempre compensatórios: enquanto um inicia a vida adulta prorrogando os deveres e planejamentos a longo prazo, a outra precisa plantar as sementes para depois poder colhe-las com tranqüilidade. É como se houvesse uma balança entre os dois, e em um dado momento, os pesos invertessem.

Para Jung, há forças que se compensam e nos levam a uma homeostase, um equilíbrio. Para isso, teríamos que lidar com nossos desbalanços, que fazem parte da vida. Porém, o equilíbrio definitivo seria impossível; o que importa é o movimento que nos guia ao longo da vida em favor desse equilíbrio. A situação final (e ideal) seria conquistar a individuação, termo que ele usou para nomear a situação hipotética em que, grosso modo, estivéssemos totalmente conhecedores de nós mesmos e com nossos aspectos conscientes e inconscientes em harmonia. Algo como um nirvana eterno (até porque, Jung se interessava e estudou muito a filosofia oriental, presente em sua teoria).
Portanto, enquanto vivos, não poderíamos atingir este estágio. Assim, no momento em que anima e animus alcançassem seu balanço perfeito, ambos deixariam de existir como entidades distintas, restando o que está individuado. Um único ser.

Até que chegamos perto do aguardado capitulo 18, no qual vemos Emma e Dexter mais parecidos, mais próximos, e em uma situação que ela define como "não alegre, mas feliz", em que a serenidade contava mais do que a intensidade das emoções. Um equilíbrio, enfim, entre os dois símbolos do feminino e do masculino, personificados nas personagens, e que bem poderia representar o estágio da individuação. Mas a individuação, como já dito, não é humanamente alcançável: enquanto estivermos no percurso da vida, não podemos alcançá-la. E é talvez por isso que, a partir daquele momento, inevitavelmente, os dois tivessem que viver apenas dentro de uma pessoa só - um indivíduo, e não mais como Dex e Em, Em e Dex.



PS: se em um livro já é difícil sintetizar 20 anos de vida, imagine num filme. Então, se estiver na dúvida, aproveite as férias e esqueça a preguiça: leia o livro. E desculpe se minha tentativa de ser sutil sobre a história não foi tão sutil assim.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Zumbizando

Essa noite o Zeca Baleiro desceu rodopiando e me fez escrever esses versinhos. O surreal foi que hoje de manhã os recebi por e-mail, porque tinha mandado pra mim mesma direto do meu Bloco de Notas do celular, e não lembrava de nada disso. Tem uma ideia científica na qual os 10 minutos que antecedem o sono são apagados da mente - ah, tá...

Já dizia madureza:
Beleza nao se põe à mesa!
Eu discordo, com certeza
É natural da natureza
Se inclinar a uma lindeza
Nao importa a riqueza
Vem lá desde a realeza
Fosse o duque ou a duquesa
O barão e a baronesa
Príncipe, princesa
Se nao tivesse essa fineza
O casório dava despesa -
- Pior no povo da pobreza.
Porque nao há no mundo destreza
Que se sobreponha à beleza:
Arruína fortaleza
Salva moça indefesa
A noite escura, deixa acesa
Frente à guerra, sai ilesa.
Por isso digo com certeza,
Na alegria ou na tristeza,
Dor de dente ou de cabeça,
Catarata ou língua presa,
Nao importa o que aconteça;
A vitória é da beleza.